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Meu Pai


Meu pai foi um homem brilhante.
Meu pai é um homem brilhante.

Meu pai vislumbrou a possibilidade de transplante de coração em uma época em que transplantação do coração era impensável; vislumbrou a biogenética estudando as diversas possibilidades de transformações do genoma humano, enquanto o mundo nem sabia do conhecimento e existência do DNA; ressaltou e "avisou" sobre a importância do frio genético, a preservação para as células por meio da criogenia. Suas descobertas e pesquisas são incontáveis.

Meu pai foi o médico de grandes Presidentes da República, de grandes Estadistas e Governantes, participou da história de seu país de corpo aberto. Lutou, atuou e teve medo da "ditadura linha-dura" pois era sensível demais para ser bode espiatório de carrascos.

Meu pai foi um Profeta da Medicina com péssima capacidade e noção de marketing e promoção pessoal.

Meu pai é amado por muitos em seu país, mas é pouco amado por seus próprios filhos.

Meu pai é admirado por muitos em seu Estado, mas não tem a admiração de seus próprios filhos.

Meu pai é venerado por inúmeros em sua cidade que o saúdam quando passa, e seus filhos só lhe guardam mágoas e decepções.

Meu pai ensinou muito a muitas pessoas, ensinou a curar, a não sofrer, a estancar a dor, e seus filhos foram objetos de sua incompreensão, intransigência e traumas, sofrendo inúmeras vezes sem o mínimo de sua atenção.

Meu pai soube (como poucos médicos) dar amor, compaixão, proteção e acalento a seus pacientes desesperados, mas não soube proteger seus filhos do medo, da insegurança, da maldade humana e nem lhes dar amor.

Meu pai foi um grande árabe, orgulhoso de sua origem, de seu sangue puro, filho de poeta, respeitoso com suas tradições e crenças, mas não soube dar nenhum ensinamento a seus próprios filhos de sangue.

Então, hoje eu lhe pergunto meu pai: - valeu a pena?!


Eu nunca mais vou ter esta resposta pois ele não fala mais.
Deus transforma em pó cada gota de seu sangue dia-a-dia.
Deus congela suas células, queimando-as, dia-a-dia.

Eu nunca mais vou ter esta resposta pois Deus calou sua vida e lhe deixou vivo para que ele tivesse ciência desta situação.

Meu querido pai, por onde quer que sua mente, seu espírito e alma naveguem, estiverem sobrevivendo, tenha certeza de que eu lhe perdôo por suas falhas humanas, por suas indecisões tão humanas, por seus medos e anseios tão infantis, por sua falta de coragem de ter vivido a vida real. Você tem o meu amor e compaixão.

Ou... como diria um sábio provérbio árabe: "- Com 5 anos teu filho é teu ditador; com 10 anos é teu escravo; com 15 anos a tua própria imagem; depois ou teu amigo ou teu inimigo."

Eu sou seu amigo, meu pai!


De toda esta história (real) e de tudo na vida, eu extraio sempre um ensinamento (talvez a mente humana precise dessa compensação). Assim minha mãe me ensinou, assim sempre o farei.

O dia de amanhã é perigoso!

Sim, é preciso viver cada dia intensamente de acordo com nossas emoções, ambições, desejos, aspirações e sensações. Mas é preciso viver com consciência e delicadeza para com o outro. Não fazer aos demais aquilo que não desejamos receber no futuro, pois a Lei do Retorno é implacável e serve para todos: reis, mendigos, profetas, altruístas, mulheres, crianças, homens, plantas e animais... todos nós sofremos consequências de nossos atos.


Meu irmão, grande poeta, neto de poeta, outro grande "profeta da medicina", assim compreendeu e sentiu este final de vida que se esvai de seu próprio pai e transformou em um emocionante poema. Doce alma.


Asilo

As bocas entreabertas.
Balbucio. Esboço da fala.
Ou do grito.

Íris arregaladas.
Fixam o Nada.
Ou mais além do Nada.

Imóveis
poltronas. E cobertores.
Recebem corpos.
Emitem ruídos.
Estranhos. Grunhidos. Guinchos.

A mente paralisada.
Se agita.
Demência. Alzheimer.
Entre sondas. E fraldas.
A vida.

Ivan Miziara




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