|
O
Conceito do Logos na Música Chinesa Um propósito importantíssimo inspirou os estrênuos esforços dos chineses no sentido de conformar a música com os princípios e proposições da ordem cósmica. Esse propósito era que, através da conformação da música com Deus, toda consciência e toda vida pudessem, identicamente, conformar-se com a mesma ordem celestial. Por mais que recuemos na história da música chinesa, encontramos sempre o mesmo, a saber, que os chineses associavam o Som Cósmico à consciência iluminada e exaltada. O Som Cósmico
- a essência vibratória de toda matéria e energia
- estava em tudo e em todos e era dado ao homem elevar a consciência,
chegar mais perto da Fonte, harmonizar-se mais perfeitamente com Deus. A espiritualidade, literalmente, era uma questão de vibração. Quem lograsse congraçar as discordâncias em seu espírito, em suas emoções e em seu corpo tornar-se-ia uma corporificação mais perfeita do Som Cósmico, uma encarnação do Verbo. Quem incorporasse o Logos seria, inevitavelmente, sábio, moral e justo por extremo; e, portanto, o mais capacitado para governar. Há aqui indiscutíveis paralelos entre o conceito chinês do homem que incorporava o Som Cósmico e a aceitação cristã do Cristo como o Verbo de Deus. Com efeito, desde as mais priscas eras, estiveram os imperadores chineses tradicionalmente associados ao Logos, o que se pode constatar pelo simples exame de um ou dois termos da língua. Por exemplo, o nome dado ao tom fundamental da música chinesa era huang chung; literalmente traduzida, significa "sino amarelo". Entretanto, usava-se a mesma expressão, simbolicamente, em referência ao governante e à vontade divina. Exteriormente, o tom conhecido como "sino amarelo" estabelecia a altura padrão em que se baseava a música da nação inteira; esotericamente, considerava-se esse tom fundamental a mais pura e perfeita manifestação audível possível do som Cósmico. Se refletirmos sobre a relação existente entre os dois tons colocados a uma oitava de distância um do outro, sendo o tom inferior um semitom que pode ser produzido pelo soar do tom mais alto, isso nos dá alguma idéia de como se supunha a huang chung relacionado com o Logos. Soando nos domínios do Espírito, o Logos produzia a altura precisa do huang chung no mundo físico e o seu semitom no plano da matéria. O "sino amarelo" estava uma Oitava de oitavas de oitavas, e mais, abaixo do Tom-Fonte; não obstante, era o seu perfeito equivalente no plano inferior: como disse Hermes, "Assim no Alto, assim embaixo". O tom "sino amarelo" era havido, portanto, com suma reverência na China antiga, por uma expressão genuína e audível do próprio Verbo. O propósito cosmológico do Verbo consistia em agir como mediador entre o céu e a Terra. O Som Cósmico fornecia um veículo para a transferência da Vontade Suprema ao mundo físico. Os homens iluminados e abnegados que se aperfeiçoavam a ponto de tornar-se a encarnação viva do Verbo também faziam as vezes de mediadores: como frutos vivos e manifestos de Deus, eram capazes de transmitir de Deus, eram capazes de transmitir os seus ensinamentos à humanidade que não estivesse suficientemente desenvolvida para poder receber os ensimentos diretamente por si mesma. Vemos, portanto, que expressão huang chung (sino amarelo) tanto se referia ao tom fundamental da música chinesa quanto, no sentido simbólica, à autoridade divina. A própria cor amarela era a cor imperial chinesa, a cor da sabedoria sagrada. E o imperador, uma espécie de rei-sacerdote: assim como o sino amarelo estabelecia a altura de todas as notas chinesas e, por conseqüência, a divina harmonização de toda a sua música, assim estabelecia o imperador leis espirituais e materiais para todos os súditos, e presidia aos negóciosdo Estado. Ele assim o fazia porque, do mesmo modo que o sino indivíduo mais perfeito, por cujo intermédio a Consciência do Logos podia manifestar-se melhor. Com o passar dos séculos, isto, às vezes, se tomou mais teórico do que real; como no caso da sucessão dos Papas católicos, os imperadores chineses, nas épocas mais recentes, nem sempre se achavam completamente apetrechados para o ofício. Originalmente, todavia, o imperador, de fato, era Legislador e Guru dos seus devotados súditos, e porta-voz terrreno do Verbo de Deus. Não se cria, porém, que a encarnação do Logos fosse o ofício de uma pessoa só. Todos os seres eram manifestação sua; todos podiam aspirar à pureza e à iluminação da consciência, através da qual se tornavam a perfeita e não-distorcida Presença do Verbo. * E, em tais circunstânciais, o mesmo propósito da música chinesa visava a este fim: pois o seu ritual e música clássica eram superiormente dirigidos à elevação e à purificação de todos os executantes e de todos os membros do público. A música chinesa daquele tempo era notável pela tentativa que fazia de libertar o ouvinte das cadeias do mundo físico. Dirigia o ouvido interior para a Fonte Suprema de todo som, totalmente além do mundo material exterior. Podem fornecer-nos uma idéia disso as narrativas dos primeiros musicólogos ocidentais que viajaram à China antes que se perdesse de todo a tradição clássica. Um deles relatou que: A música da cítara de sete cordas tende constantemente para sons imaginados; prolonga-se um vibrato por longo tempo depois de haverem cessado todos os sons audíveis; a corda não ferida, posta em movimento por um súbito glissando interrompido, produz um som escassamente audível até para o executante. Nas mãos dos executantes de uma geração mais velha o instrumento tende a ser usado mais para sugerir sons do que para produzi-los. · A lenda de Ling Lun, em que se descreve a altura original do huang chung, transmite de maneira muito poética o elo logóico entre a consciência aperfeiçoada e o tom fundamental perfeito: afirma-se que o tom original correspondia à altura precisa da voz de Ling Lun quando ele falava sem paixão.
|