O EMPREGO DO SOM NA CHINA MODERNA


Se sairmos à procura das artes tonais da China continental, como existem hoje, descobriremos que elas se baseiam, em grande parte, na ópera.

E, acreditem ou não, as linhas básicas das histórias das óperas derivam, com freqüência, das produções de tempos antigos.

Fizeram-se, contudo, ligeiras modificações depois da guerra civil e da vitória comunista do fim da década de 1940: com sabedoria incontroversa, os pais da revolução houveram por bem substituir os protagonistas tradicionais das óperas.

Os indivíduos originais, lendários e espiritualmente elevados, foram suplantados por "trabalhadores" e revolucionários uniformizados.

Os títulos e as linhas das histórias também se ajustaram, e hoje concernem a um dos quatro temas básicos: (a) revolução, (b) reforma política, (c) anticapitalismo e (d) exaltação de uma ou mais figuras políticas proeminentes, mudando os nomes e os rostos de cada um de acordo com as mudanças registradas no clima político.

O chinês moderno que freqüenta concertos tem à sua escolha obras como a sinfonia da Guerra Sagrada, a Cantata do Rervatório dos Túmulos Ming e balés como O Destacamento Vermelho de Mulheres.

Por estranho que pareça, o fato é que, diante de tão inspiradora e desnorteante variedade de temas permitidos, os músicos chineses, nos dias que correm, não primam pela criatividade e inspiração.

Existe também outro meio através do qual o som se irradia das aldeias aconchegantes e das cidades trepidantes da China atual, entendamo-lo como quisermos

De acordo, mais uma vez, com o clima político corrente, quase toda a população - do mais jovem escolar ao mais velho operário, de Pequim à menor das aldeias - é "solicitada" a observar uma rotina diária de canções anticapitalistas e cânticos de morte.

Nesta segunda metade do século XX enquanto nossos escolares começam o dia com orações matinais e hinos a Deus, as crianças chinesas e seus superiores concluem o seu com gritos repetidos, rítmicos, roucos, em que pedem a nossa morte e a nossa destruição.

Que era o que lhes passava pela cabeça enquanto faziam (e ainda fazem) isso? Quais eram os verdadeiros e mais profundos motivos de seus dirigentes ao orquestrar esses cânticos de morte? Seria tão-somente o desejo de doutrinar os milhões de chineses, obrigando-os a assumirem uma posição anticapitalista? Pessoalmente, acredito que houvesse mais do que isso.

Podemos estar presenciando aqui o vir à tona, em escala gigantesca, da crença subconsciente, profundamente enraizada, presente talvez em todos nós, de que, vocalizando nossos desejos podemos ajudá-lo a concretizarem-se.

Mas - cânticos de morte? Magia negra em escala internacional? Como respeitáveis cidadãos do século XX, evidentemente, não podemos admitir a possibilidade de coisas assim. Os antigos, é claro, não teriam duvidado. Teriam visto os cânticos chineses como uma tentativa objetiva, ainda que parcialmente incosciente, em vasta escala, de enfraquecer e desintegrar a estrutura da sociedade ocidental através do mau uso do Som Cósmico.

Os antigos teriam acreditado na realidade do fenômeno e no funcionamento da magia, que os cânticos podiam materializar seus efeitos de inúmeros maneiras - em qualquer coisa, desde a derrota militar do Ocidente até a sua ruína econômica, desde a sua decadência moral até a divisão da sua unidade entre nações e gerações.

Mas é preciso, naturalmente, que tais noções continuem de todo inaceitáveis para nós, vivendo como vivemos numa era moderna de iluminação científica.

Sabemos que a prática dos cânticos só pode ser propaganda ou, quanto muito, superstição.

Exatamente como sabemos que não passou de mera coincidência, com o desaparecimento da filosofia e da música antiga da China, a degeneração da ópera clássica no "cântico de morte" no espaço de poucas décadas.

Louvadas sejam as glórias da ciência e da arte do século XX! Sabemos hoje que o som nada mais é do que vibrações do ar, pois hoje vivemos numa era muito mais sábia que a dos antigos chineses. - Ou não?