O GÊNESE EGÍPCIO


Voltando ao Egito, descobrimos uma ciência de misticismo e uma mitologia da Criação tão complexas quanto as da Índia e da China. E tornamos a encontrar o conceito da força criativa do som sagrado.

O Livro egípcio dos mortos e outras fontes declaram, sem nenhuma ambigüidade, que Deus, ou seus deuses-servos menores, criaram tudo o que existe combinando a visualização com elocuções.

Primeiro, o deus visualizava a coisa que havia de ser formada; em seguida, pronunciava-lhe o nome: e ela era.

Ainda no reinado de Alexandre II, um texto que data aproximadamente do ano 310 a.C. ainda apresenta o deus da Criação declarando: "Numerosas são as formas daquilo que procede da minha boca".

O deus Rá era também chamado Amen-Rá, com o prefixo "Amen". O termo Amen, ou AMN, bem compreendido pelo clero egípcio, era equiparado ao OM hindu. (A palavra é ainda hoje usada naturalmente como fecho das orações dos cristãos).

Um papiro declara: "Rá falou no princípio da Criação e mandou que a Terra e os céus se erguessem da imensidão das águas."

Que o oceano primordial, arquétipo da Criação, mencionado em tantos mitos pelo mundo afora, não deve ser tomado ao pé da letra como formado de água, em parte alguma se patenteia melhor do que nos relatos egípcios da Criação, nos quais, especificamente, se proclama que, antes de existirem quaisquer formas de seres vivos, existia Nu, vasta massa de Águas Celestiais emergiu o primeiro deus, Quépera, ou Rá, pronunciando o próprio nome.

Daí por diante ele se pôs a criar outras formas e outros deuses pelo processo combinado de visualizá-los e pronunciar-lhes os nomes.

Os deuses assim criados eram também capazes, por seu turno, de criar através de processo semelhante, empenhando-se no que poderíamos denominar uma "redução de freqüência" da Vibração Única.

Consoante os relatos egípcios da Criação, eram as "Águas", uma massa não-diferenciada de energia.

Nessas "Águas" se despejavam as vibrações do Verbo, emitindo, por esse modo, correntes de radiação, como quando se atira uma pedra num lago. Quando, num lago, as ondas originais refluem das margens, disso resulta um entre-cruzamento das ondulações, e emerge um padrão muito mais complexo de formas geométricas.

À proporção que as ondulações se entrecruzam, podem ver-se ângulos, quadriláteros, triângulos, etc.

Estas e outras formas mais complexas, no nível cósmico, eram, do ponto de vista dos antigos, as matrizes para a precipitação da matéria. Supunha-se que a chave da criação da matéria fosse a tensão resultante das ondas "opostas" de vibração. Não somente ao Deus-Criador egípcio, mas também aos deuses menores se atribuíam o conhecimento e o emprego das palavras de poder, sendo-lhes a boca "hábil no pronunciá-las". Com essas palavras de poder, e hierarquia dos deuses criava e destruía a forma, curava os enfermos e dava vida aos mortos.

O Deus dos deuses, Rá, "falou palavras criadoras" a fim de dar existência a todos os deuses menores da hierarquia celeste. Segundo os egípcios, Rá também revelou o segredo de certas palavras de poder ao clero terreno; palavras mercê das quais répteis, enfermidades e outros males podiam ser vencidos.

Isso revela que a idéia do poder criador da fala não se limitava à criação mítica do universo.

Acreditava-se que as condições materiais podiam ser modificadas a qualquer momento pelas manifestações orais dos deuses.

Os mortais que soubessem manejar as palavras de poder também podiam invocar e dirigir as energias dos céus.

Num texto vemos Rá ordenando: "Ouvi-me agora! Minha ordem é que todos os meus filhos sejam trazidos para junto de mim (elevados na consciência total) a fim de que possam pronunciar palavras de poder que serão sentidas na Terra e nos céus".

Do mesmo modo com que os deuses criavam, combinando a visualização com a fala, assim também acreditavam os sacerdotes ser possível ao homem operar mudanças no mundo físico.

Considerava-se a visualização, combinada com certos mantras e invocações, uma chave vital para o sucesso na maioria dos atos de magia branca.

Os egípcios também tinham um conceito padrão vibratório ou combinação de padrões, podia ser dominado ou influenciado pela enunciação do seu padrão de som correspondente.

Tudo e todos possuíam um nome tônico, às vezes chamado "nome secreto" - secreto porque, se uma pessoa revelasse o seu nome secreto permitiria a outros alcançarem poder sobre ela.

Rá também possuía um nome secreto, a mais poderosa de todas as palavras de poder. Eis aí a razão por que o encontramos declarando num texto: Eu sou um deus e o filho de um deus; eu sou (em inglês = I AM) o Poderoso, Filho do Poderoso. Nu, meu pai, concebeu meu nome secreto, que me dá poder, e escondeu-o em meu coração para que nenhum mágico possa jamais conhecê-lo e, conhecendo-o, ter poder de me fazer mal.

O conceito do mantra-bija ou "nome secreto" estava difundido no mundo antigo, e ainda hoje continua presente em algumas partes do mundo.

Acredita-se que todo ser humano possui sua própria melodia pessoal. E, pela imitação dos sons da natureza, muitas culturas acreditavam ser possível conquistar esse poder sobre a espécie particular de criatura ou fenômeno da natureza imitado.

Nenhuma criatura viva poderia reproduzir tantos sons diferentes quanto o homem, graças ao seu versátil aparelho vocal e à sua capacidade de construir instrumentos musicais.

Isso lhe daria enorme poder pois, se conhecesse o som da nota tônica de um objeto, poderia reproduzi-lo e, dessa maneira, obter a posse da energia de que o citado objeto estaria carregado.

Ser capaz de manejar essa força que o habita (orenda, kami, manitu, sila, mana, e assim por diante) é a chave de toda a magia.

O mágico ou xamã considerava a citada energia uma força impessoal que o homem, se soubesse como, poderia controlar e dirigir.

Como na China e na Índia, a música egípcia estava profundamente associada ao misticismo e à cosmologia.

Vimos em capítulos anteriores que muitas culturas acreditavam que a escala musical pentatônica, com seus dois semitons auxiliares (que constituem o que hoje se denomina a escala diatônica), reflete os sete Tons principais ou Som Cósmico.

Assim também no Egito. E mais uma vez, como outros povos acreditavam que cada um desses Tons era produzido por determinado ser divino (como o Eloim dos hebreus) - assim também os egípcios.

Podemos tomar, por exemplo, uma narrativa da Criação particularmente jovial.

Um texto egípcio gnóstico, de data e origem desconhecidas, afirma alegoricamente que, no princípio, Deus "riu" sete vezes: Ha-Ha-Ha-Ha-Ha-Ha-Ha. Deus riu, e dos sete risos surgiram sete Deuses, que abarcaram todo o universo: foram estes os primeiros Deuses.

Muitas religiões do mundo concordam com a idéia de que existem sete "primeiros Deuses", personificação viva da primeira diferenciação do Tom Único em sete.

Os hebreus chamavam a esses Deuses o Eloim. (E vale assinalar que em certo número de passagens do Gênese, quando se mostra Deus decretando a Criação, a expressão bíblica "Senhor Deus" é, na realidade, uma tradução muito fraca da palavra hebraica plural Eloim. Isto é, conforme a versão hebréia original, deveu-se a Criação aos Deuses dos sete Tons).

Esses mesmos primeiros Deuses, emanados do princípio da Trindade, constituem também parte dos ensinamentos hindus; mas aqui, no Hinduísmo, temos igualmente a interessante distinção entre cinco deles e dois outros, o que sem notas da escala diatônica. "Sete são os grandes Deuses abaixo do Trimurti", dizem-nos. "Só cinco trabalham e dois estão ocultos. São eles Indra, Vayu, Agni, Varuna, Kshiti".

Os hieróglifos egípcios, toda vez que mostram - como o fazem com freqüência - os raios descendentes do Sol estão, na realidade, ilustrando os Tons ou "raios" descendentes dos primeiros Deuses à maneira que esses raios deixam o Único.

Invariavelmente, os raios são pintados como linhas radiantes e descendentes; muitas vezes com as mãos presas à extremidades inferiores, ao indicar que o seu propósito é criar e modelar as coisas, e sempre em número indicativo dos Tons Cósmicos: sete, doze ou, de vez em quando, treze.

O clero egípcio usava o som como meio de invocar o poder de Amen, ou OM. Tanto a música dos instrumentos quanto a voz humana, como na emissão de mantras, invocações e ordens, podiam ser usadas com esse propósito.

A própria palavra que identificava o som (herw, literalmente "voz") denotava que o som terreno estava associado ao Verbo.

Notas singulares, sustentadas, entoavam-se exatamente como o hindu entoa o OM, ou seja, com a finalidade de alcançar a harmonia interior e a união com a Divindade.

Mas, provavelmente mais do que em qualquer outro lugar do mundo histórico civilizado, os mistérios egípcios envolviam o emprego científico, deliberado, de fórmulas verbais específicas.

Maspero anotou, em relação à cerimônia mágica egípcia: A voz humana é o instrumento por excelência do sacerdote e do encantador. É a voz que procura ao longe os seres invisíveis evocados e torna realidade os objetos necessários.

Cada um dos sons que emite tem um poder especial, que escapa à atenção do comum dos mortais, mas é conhecido dos adeptos e por eles utilizado.

Visto, porém, que cada uma (das pronúncias e suas alturas) tem sua forma peculiar, é mister tomar muito cuidado para não lhes modificar a ordem e não substituir uma pela outra.

O poder da voz se estendia não só à cerimônia mágica, mas também à fala de cada dia. Acreditava-se que todas as elocuções liberavam energia, boa ou má, de acordo com o estado interior do locutor e seu uso do ritmo, da melodia e da sintaxe.

O homem comum, ignorante do poder da palavra falada, criava constantemente suas limitações de caráter, sua má saúde e suas indesejáveis condições de vida, através de elocuções ociosas, impensadas e malignas.

Mas uma parte do adestramento do sacerdócio incluía o emprego correto e prudente da fala de todos os dias, fazia que as palavras pronunciadas fossem "animadas de uma harmonia".

Muita coisa relativa aos mistérios egípcios está envolta agora nas brumas do tempo. Podemos ter certeza de que poucos dentre os seus ensinamentos mais íntimos foram postos por escrito e sobreviveram, se é que algum o foi.

Sobretudo nas primeiras dinastias, o sistema de misticismo e ciência mágica da Terra do Nilo era provavelmente tão desenvolvido quanto o de qualquer povo.

Por exemplo - há indicações de que o uso do tom pode ter sido regulado, como na China e alhures, segundo os ciclos do tempo e da astrologia. O chandre do tempo cantava as horas regularmente, liberando o som a cada novo ciclo de tempo.

Dio Cassius, que floresceu no segundo século d.C., nos transmite a fascinante informação de que os egípcios praticavam em sua música uma escala sideral, de lá a sol, ligada aos movimentos dos planetas.

(Isto aponta mais uma vez para o papel crucial do Egito como o verdadeiro berço dos ensinamentos de Pitágoras sobre a Harmonia das Esferas).