O HUANG CHUNG COMO EMBASAMENTO DA CIVILIZAÇÃO


Para os sábios e imperadores da China antiga, a conciliação da Terra com o Céu e a do homem com o Supremo era, literalmente, o propósito da vida.

Parte importante desse procedimento consistia em conformar conscientemente a civilização com os princípios e proporções celestes.

Vimos, por exemplo, que se dava muita atenção à certeza de que a música da civilização se harmonizava com o Logos por meio da padronização de todas as alturas musicais de acordo com o huang chung. Mas que dizer das dimensões da extensão e da largura dos objetos?

Tudo bem quanto à música da civilização, mas que dizer do seu sistema de pesos? Não devia ser tudo padronizado de acordo com o Alto, e não somente as alturas musicais?

O Som Cósmico não constituía de fato a base de tudo, e não era ele que determinava o peso, o tamanho e o tom de todas as coisas?

Entretanto, havia aqui um problema: se bem que fosse relativamente simples proporcionar o som mundano com o Som Cósmico, descobrindo a escala terrena de tons que correspondiam aos Tons Cósmicos, como poderiam os sistemas não-tonais de mensuração tornar-se também reflexos acurados dos princípios dos céus?

Como no caso da sua adesão universal a uma altura fundamental da sua música, era uma questão vital para os chineses que todos os seus sistemas de padronização fossem sagrados, e não profanos.

Era uma questão vital para eles visto que, de acordo com a filosofia secular, o que espelhasse os céus seria, como os céus, eterno.

Uma civilização que espelhasse o Alto nunca seria destruída, pois toda instituição e objeto dentro dela, proporcionaria um meio de encerrar as forças cósmicas revigorantes, enaltecedoras da vida.

Por outro lado, a civilização que se fundasse em princípios mortais e arbitrárias nunca duraria muito tempo, por estar inevitavelmente condenada à transitoriedade e à decadência.

E assim, milhares de anos atrás, numa época tão distante que a humanidade, hoje, dela não possui registros acurados, algum indivíduo deve ter-se empenhado em descobrir a solução do problema.

Talvez depois de muito jejum, orações, reflexões e meditações preparatórias, ele tivesse finalmente atinado com a revelação de como, da simples posse da divina altura do som, pudessem derivar todas as divinas proporções.

No caso da música, a chave da exata conciliação com o Som Cósmico era o tom fundamental do huang chung. E para produzir esse tom, era preciso soprar num tubo de dimensões específicas, não era?

Assim sendo, aqui mesmo se encontravam as proporções exigidas! A altura, o comprimento e o volume do tubo estavam completamente interligados: se mudasse o comprimento, por exemplo, mudar-se-ia automaticamente o volume, como se mudaria a altura produzida pelo tubo.

Só o tubo de comprimento perfeito e de volume perfeito produziria o perfeito tom do "sino amarelo". Daí que o seu comprimento viesse a tornar-se a medida padrão de comprimento chinês, sua capacidade, a medida padrão de volume, e a quantidade de grãos de arroz ou de painço que o tubo pudesse conter, a medida padrão de peso.

Tão estreitamento associadas se tornaram na China e música e a padronização de todas as outras dimensões que o Departamento Imperial de Música estava ligado a ao Departamento de Pesos e Medidas.

E o tubo sagrado que ensejava a padronização era não raro propriedades, não do primeiro departamento, mas do segungo.

*Como se quisessem demonstrar para todo o sempre o penúltimo grau de seu idealismo e da sua devoção científica ao Alto, os chineses conseguiram, teoricamente, adequar toda a sua cultura e civilização ao huang chung e, por conseguinte, ao Logos.

* Aspectos menos positivos e mais esotéricos da vida chinesa também se relacionavam com princípios musicais.

Por exemplo, o I Ching (Livro das Mutações) parece ter sido associado, num plano fundamental, ao misticismo da música.

Tanto o I Ching quanto a antiga filosofia da música chinesa compartem do mesmo sistema de numerologia, geometria e cosmologia.

E, como aqueles que usaram o I Ching o saberão por si mesmos, o kua, ou configurações de linha que simbolizam as energias cósmicas, usadas como símbolos para indicar as oito classificações de instrumentos chineses, é também básico para o sistema I Ching de adivinhação.