Modo = Estado de Espírito


As cinco notas também se relacionavam com uma das cinco virtudes importantes - bondade, honestidade, propriedade, conhecimento e associação, feita pelo homem, de diferentes qualidades psicológicas com alturas específicas.

A crença em que cada expressão musical específica exerce seu efeito objetivo sobre o homem reside no próprio âmago do tema do poder interior da música.

Além de ligar notas a virtudes, os chineses estavam igualmente convencidos de que os vários estilos de combinações de notas - isto é, os diferentes modos - também exercitavam suas influências definidas sobre as emoções do homem.

Segundo a nota tônica, dominante, e outras notas importantes dentro de determinada peça de música, e segundo a sua ordem nas seqüências melódicas de notas, seriam determinados os efeitos emocionais e morais exercidos sobre o ouvinte.

Podemos expressar este conceito numa fórmula sucinta: MODO = ESTADO DE ESPÍRITO.

Há boas razões para supor que as aplicações práticas desta fórmula pelos músicos chineses representavam um papel central para determinar todo o curso da história chinesa.

Durante os vários milhares de anos da história da China houve, pelo menos, alguns períodos de conflitos internos e invasões procedentes de terras estrangeiras e, apenas disso, no correr de todos esses acontecimentos, o "aroma" essencial da civilização - sua filosofia, seu estilo de vida e até a aparência física de sua arquitetura e dos seus estilos de roupas - permaneceu praticamente o mesmo.

Cotejemos com isto o povo da Europa nesse período (3000 a.C. até o início do século XX) com todas as idas e vindas das raças, ascensões e quedas, extermínios de massas por meio da guerra e da peste e extremas diferenças culturais no transcorrer dos cinco milênios, e principiaremos a ter alguma idéia da magnitude do feito chinês!

E agora, nestas décadas finais e dolorosas do século XX - quando reinam extremos calamitosos de caos, quando muitos escassamente acreditam possa a civilização ocidental sobreviver a mais cinqüenta anos, quando o mundo está ameaçado por uma avassaladora multidão de perigos, incluindo os prenúncios de uma possível guerra nuclear, tumultuosas sublevações sociais e cataclismos naturais - agora ou nunca devemos descer das nossas frágeis e insubstanciais plataformas de orgulho cultural, e lançar um longo e calmo olhar - com humildade - para a idade áurea da China.

Como mantiveram os chineses a mesma cultura básica e a mesma sociedade, largamente imunes a todos os eventos que os ameaçavam, por milhares de anos? Qual era o segredo? Seria algum que poderíamos aplicar nos dias que correm? E - o que é talves igualmente importante - que foi o que, afinal, acarretou a queda da antiga civilização chinesa? Haverá alguma lição de advertência a respigar do fato?

O Grove's dictionary of Music and Musicians* comenta-o de maneira perceptiva: "A despeito das vicissitudes do tempo, da destruição, das guerras, das influências estrangeiras e dos experimentos independentes, tudo foi assimilado ou rejeitado e conduzido de volta pela persistente filosofia natural (da China) como que guiada por mão oculta."

Há, sem sombra de dúvida, considerável verdade na idéia de que a visão filosófica e religiosa do mundo que tinham os chineses atuou, no decorrer dos milênios, como agente de orientação e ordenação. Mas como pôde a própria filosofia perdurar por tanto tempo, relativamente inalterada?

O Dicionário de Grove tem obviamente razão ao falar numa "mão oculta" que continuou a manter certo molde ou matriz no transcurso da civilização chinesa.

Entretanto, o molde pode ter consistido em algo mais potente e vigoroso em seu efeito prático do que a simples filosofia natural. E os próprios chineses acreditavam que as coisas eram assim, convencidos de que os padrões da vida acompanhavam os padrões da música; como na música, assim na vida; e uma música estável assegurava a existência de um estado estável.

Concebia-se o efeito da música sobre uma nação como semelhante ao de um ímã mantido debaixo de uma folha de papel, em cima da qual se colocam limalhas de ferro: por mais que você sacuda as limalhas, deixe cair outras sobre elas, faça o que quiser, o ímã e seu campo magnético continuarão a manter o mesmo padrão e a mesma ordem.

Só se pode modificar o padrão das limalhas de ferro mudando a posição do próprio ímã, ou substituindo-o por outro de forma diferente.

E assim como o ímã impõe ao padrão de limalhas a conformidade com o seu campo, assim Confúcio e outros filósofos chineses estavam certos de que os modos governavam os estados de espírito, de sorte que a música, dessa maneira, influía na vida.

*Dicionário da música e dos músicos, de Grove.


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