DOS TEMPOS E DOS CICLOS, DA MÚSICA E DOS MODOS


Nunca se poderá exagerar a extensão em que a música se harmonizava com os princípios cósmicos.

Cada uma das doze notas do sistema musical chinês se relacionava com um doz doze signos do zodíaco, um dos doze meses do ano e uma das doze horas do dia (uma hora chinesa tinha exatamente a duração de duas das nossas).

Considerava-se imperativo que a música terrena se ajustasse aos harmônicos celestiais daqueles ciclos de tempo.

Como dissemos, presumia-se que o Tom Cósmico dominante mudasse com o passar de um mês zodiacal a outro; e assim também se acreditava que a relação harmônica entre os doze Tons mudava com a mudança das fases da Lua e da hora do dia.

O problema que isto apresentava é manifesto: como poderiam os chineses manter sua música em harmoniosa correspondência com os harmônicos dos céus se os próprios Tons celestiais não cessavam de mudar em sua relação com a Terra?

A solução era simples em teoria, porém menos simples na prática: para cada uma das mudanças regulares do Tom Cósmico, os chineses mudavam a tônica e, às vezes, até o modo da música.

Surpreende-nos hoje ouvir falar nessa prática. Imagine-se o regente moderno, dirigindo a Orquestra Sinfônica de Londres na execução na Nona de Beethoven, olhando para o relógio e, de repente, fazendo sinais para que a música fosse inteiramente transposta! Ou um pastor precipitando-se nave abaixo, em uma manhã de domingo, gesticulando para o sombrio coro da igreja e bradando que acabavam de passar para Touro!

E, sem embargo disso, os chineses eram muito sérios: tinham a íntima e absoluta convicção de que sabiam o que estavam fazendo e por quê. É muito para duvidar que eles, algum dia, houvessem perpetrado a absurdidade acima descrita.

Para compor, reger, executar ou apreciar como ouvinte a música antiga, fazia-se mister, muitas vezes, a absorção antecipada de grande quantidade de conhecimentos esotéricos, astrológicos e astronômicos.

Os músicos sabiam precisamente o que tocar e como tocá-lo de acordo com a data e a hora do dia.

Revela compreender que não somente a música, mas a própria astrologia chinesa, em sua origem, se baseava com firmeza no conceito do Som Cósmico.

A astrologia era a ciência do Som celestial. Consideravam-se os doze Tons que emanavam do Verbo Uno, em suas várias combinações harmônicas, a verdadeira causa das influências astrológicas em acontecimentos terrenos.

Os efeitos astrológicos não eram os resultados inexplicáveis e não esclarecidos, indistintamente atribuídos aos astros, como o são para os astrólogos modernos.

Pelo contrário, havia uma teoria científica e assaz plausível para explicar as influências astrológicas: supunha-se que os doze Tons do zodíaco, que irradiavamo para a Terra suas Vibrações superfísicas, fossem capazes de influir em estados psicológicos, fenômenos da Natureza, etc.

Afinal de contas, um trecho de música terrena não nos afeta amiúde profundamente e não nos comove? Muito mais poderão mudar o nosso estado de consciência os Harmônicos do Além!

Com efeito, não se compõe a matéria toda de energia que oscila em freqüência variadas? Assim sendo, a idéia de que ondas de energia de alta freqüência, provenientes de além da Terra, podem afetar a matéria e a consciência não nos parece implausível nem supersticiosa.

De acordo com os chineses, as passagens mensais de um signo do zodíaco para outro indicavam as modulações cósmicas no padrão dos harmônicos celestiais.

A cada nova configuração estelar, novos Tons inundavam a Terra, trazendo consigo novas tendências de pensamento, novos estados de espírito, diferentes padrões de comportamento e diferentes atividades no reino da Natureza.

O mais interessante é que sobreviveram intactas, desde esses dias, algumas indicações de que se associavam tons musicais reais às doze luas do ano e às horas do dia.

(Deveríamos lembrar-nos de que a principal importância desses sons audíveis era o ser, cada um deles, o equivalente terreno de um dos próprios Tons do Céu).

Traduzindo os tons musicais de acordo com a escala ocidental moderno (dó, dó#, etc.) eram as seguintes as correspondências:


Nota - Lua - Hora

dó - 6 1 - dó# 7 3
ré - 8 5 - ré# 9 7
mi - 10 9 - fá 11 11
fá# - 12 1 - sol 1 3
sol# - 2 5 - lá 3 7
lá# - 4 9 - si 5 11


Seria agradável pensar que, a partir desses dados, pudéssemos agora levar adiante a tradição de transpor e alterar nossa música de acordo com o mês e a hora!

Entretanto, uma advertência aos pretensos ressuscitadores da arte perdida: as notas ocidentais acima indicadas têm apenas a altura aproximada das chinesas.

O tom fundamental do huang chung aproximadamente fá, correspondia à décima primeira lua e à décima primeira hora. Mas, como o veremos dentro em pouco, a altura do huang chung (e, por conseguinte, de todas as notas da escala) variou com o correr dos séculos.

Levando ainda mais longe a afinação da sua música, embaixo, pelos princípios celestiais, no Alto, os próprios instrumentos musicais chineses eram designados, não raro, segundo uma profunda simboligia esotérica.

Um dos mais antigos e sagrados dentre eles, o sheng, é um instrumento de sopro quase que só utilizado nas sagrados convocações sazonais.

Tinha 24 tubos - isto é, uma expressão tonal yang e outra yin para cada um dos doze signos do zodíaco. Além do mais, podemos estar certos de que ele se supunha destinado não só a propósitos simbólicos, mas também a finalidades eminentemente práticas - a invocação de forças cósmicas.

Outro instrumento, o chuen, possuía doze cordas abertas mais uma décima terceira corda muito dessemelhante que, à diferença das outras, era esticada ao longo de uma escada calibrada.

Aqui, as doze cordas representam as doze diferenciações zodiacais e Tonais do Logos, ao passo que a décima terceira corresponde ao próprio Logos.

(A mesma relação cosmológica é evidente no caso das doze tribos de Israel e da décima terceira tribo - o clero. Mais tarde, a mesma mandala apareceu na forma dos doze discípulos e Jesus Cristo).

Em certas ocasiões, empregava-se mais outra variável para infundir princípios cósmicos na música: o número dos músicos.

Por exemplo, a gigantesca orquestra ao ar livre da Dinastia T'ang incluía 48 cantores, ou um cantor para cada um dos quatro elementos relacionados com cada um dos doze Tons (4 X 12).

Uma orquestra que tocava no interior das casas incluía 120 (10 X 12) harpistas. Haveria, sem dúvida, inúmeros outros exemplos, mas o nosso conhecimento atual dos números precisos e da constituição da maioria das antigas orquestras é incompleta.

Todo aspecto concebível da música harmonizava-se, então, com o Alto, para que cada continuasse mundano. O resultado era uma arte científica; a arte por amor dos efeitos práticos.

Criando uma arte tonal que era um exato equivalente do Som Cósmico e da ordem celestial, os antigos estavam convencidos de haverem proporcionado um meio para o ingresso da proporção celeste e de energias sagrados no mundo da matéria.

A Terra se tornara imperfeita em virtude dos pensamentos, palavras e atos inarmoniosos da humanidade imperfeita. Mas toda a perfeição podia ser restaurada e mantida pela emissão de música perfeita. Dessarte, seria possível, conduziria ao desastre.

O som sagrado era o equilíbrio contra a imperfeição e o mal. E mais: acreditava-se que a música corretamente aplicada reajustava finalmente o mundo à sua Fonte original e perfeita.

Não tem a música do mundo seus momentos de maior realce, seus trechos mais altos ou mais importantes?

O mesmo se pode dizer da sinfonia das estrelas. Cria-se que emanações vitalmente importantes de Tom inundavam a Terra em certos momentos especiais do ano.

Os pontos médios de cada estação, os dois solstícios e os dois equinícios, eram períodos durante os quais se liberavam vastas radiações de energias sagradas no plano espiritual.

A música agiria como meio de ajudar as forças de acrescentamento da vida e entrarem mais plenamente no mundo material; era, portanto, nessas quatro épocas do ano que se poderiam usar a música e o ritual com maior eficácia do que em qualquer outro momento.

(Como já tivemos ocasião de notar, dizia-se que, para tais festividades, a Dinastia T'ang reunira uma "orquesta" de dez mil executantes.)

Revigorada por essas quatro efusões do Som Cósmico todos os anos, a Terra recebia o que poderíamos denominar uma "sinfonia anual das estrelas" de quatro movimentos.

Invocando cientificamente o máximo possível da energia sagrada para o plano da Terra, a manutenção de quatro períodos anuais e ritual sagrado assegurava os maiores benefícios para a nação em todos os seus negócios nos três meses seguintes.

Uma consciência dos quatro períodos vitais também é evidente em todo o correr da história espiritual e oculta do mundo ocidental. Por exemplo, as celebrações pagãs e mágicas buscavam canalizar - e, não raro, desviar - as energias do solstício ou do equinócio para níveis da libido moral.

Em resposta, os primeiros cristãos, que também tinham consciência do significado esotérico dos quatro pontos do meio das estações, estabeleciam certo número de celebrações e rituais sagrados a fim de ver, mais uma vez, as energias sagradas pura e altruisticamente canalizadas.

Os principais dentre esses períodos eram a Páscoa e o Natal (o equinócio da primavera e a solstícia do inverno).

Podemos também observar, de passagem, que tais ocasiões são hoje, em sua maior parte, novamente celebradas de maneira pagã e hedonística. Seria a atmosfera espiritual da Terra revolvida e acelerada de novo se as quatro convocações sagradas viessem mais uma vez a ser observadas de maneira correta, mediante o emprego mais geral e difundido do canto sagrado e da bela música?