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Janelas


JANELAS Roteiro para curta-metragem baseado no romance de Mabel Velloso.

De madrugada - pouco antes do sol nascer.

Câmera fechando em close do lado de fora vê-se a janela do Sobrado.

Trilha instrumental do refrão de "Sobrados" - violão solado.

Mabel vai abrindo os dois lados da janela - visão triste.

Janela abre de dentro para fora vê-se o quarto vazio contendo os objetos que serão descritos no decorrer da voz em off da personagem.

As ruas estão vazias. Visão de Mabel: a praça está vazia envelhecida e vê-se ao longe a igreja. Câmera passeia pelos sobrados.

Entra voz em off de Mabel:

" - Nossa Senhora da Purificação...naquela noite sofrida eu não pedi Sua ajuda. O Rádio e a TV anunciam e mostram grande enchente em Santo Amaro. Diziam que foi tromba d'água."

" - Em mim também uma espécie de tromba d'água... [ visão de Mabel olhando para o rádio ] tudo por água abaixo...uma dor... [ visão de Mabel olhando para a TV ] uma perda."

"- Olhei o quadro de Nossa Senhora pendurado na parede suja [ visão do quadro ]. O quadro limpo, Nossa Senhora cercada de nuvens."

"Pensei no povo de Santo Amaro, tudo perdido. " [ visão sobreposta das ruas repletas de transeuntes ]

" - MÃE DO CÉU... [ volta a visão das ruas vazias ]... como criança eu chamava. Quando o meu socorro irá chegar?"

" - Leio e fico lembrando que a vida continua..." [ visão dos bilhetes no armário e na escrivaninha e da televisão ligada ]

Mabel caminha para cozinha. Sobe a trilha cantada do início de "Sobrados". Visão da cozinha: a pia cheia de pratos - gordura das panelas.

Mabel tenta abrir a torneira e a água sai em pouca quantidade. [ Plano aberto ] Começa a tentar lavar a louça - suas mãos magras mergulham na gordura.

Na TV, [ fade out na trilha ] novas notícias de Santo Amaro. "O Subaé o RIO SONSO, enganou todo mundo..."

" - Sobra água em Santo Amaro. [ Close na torneira ] Falta água na torneira da pia."

Mabel volta para a sacada da janela [ visão geral das ruas vazias ].

Algumas poucas pessoas andando na intenção de irem trabalhar.

[ fusão ] Mabel lembra das Missas de festas, das Novenas. [ visão interna da igreja em festa - cheia - todo mundo sentado ].

Visão de Mabel que está nos banco de trás olhando para a frente.

[ Entra voz em off de uma irmã ] - [ fusão da imagem de Mabel quando criança ] A Irmã dizia: "...não olhem para trás. O que importa é o que está na frente."

[ Close da menina querendo olhar para trás ] - Voz em off de Mabel: " - O que será que estava atrás?"

[ Fusão - Close em Mabel atual ] - Voz em Off: " - E minha vida? Sempre quero olhar para trás."

[ Visão da igreja - todos se levantam ]. Entra a trilha de "Ladainha de Santo Amaro" - instrumental.

Cena de um batizado diante do altar - Close de uma criança. [ Visão de Mabel em pé ] - Entra voz em off de Mabel: " - Nasci em uma quarta-feira de cinzas, dia de ressaca, eu nasci chorando forte e cresci assim. Hoje o choro é fraco."

[ Fusão ] Mabel se lembra de sua casa na infância. Casa grande - em cada quarto uma janela - quintal [ câmera abre no número 39 e passeia pela casa vazia ].

Visão de Mabel quando criança olhando também pela janela. [ Fusão da lembrança ] - Casa cheia com os 8 irmãos.

[ Visão das crianças brincando ]: quintal limpo, banco de cimento, a mangueira com sombra e frutos. Sombra e frutos...[ clima de cheiro de terra molhada e folha verde ].

[ Close se Mabel brincando de teatro com alguns irmãos -, enquanto outros brincam de trem no banco de cimento ]:

" - Dá licença Senhorita ? "
" - Pode entrar Senhor Doutor."
" - Hoje a tarde está bonita..."
" - Seu chapéu, faça o favor..."


Entra voz em off:
" - Pela vida a fora procurei sempre mangueiras mas cortaram do meu caminho muitas sombras e levaram os frutos doces para longe."

[ Visão de uma sombra que chega perto de Mabel brincando com um brinquedo e pisa no brinquedo ] - Entra voz em off: " - Por que sempre vem gente malvada quebrar o brinquedo da gente ?"

[ Fusão de volta a igreja ] - Mabel em pé, senta-se.
Olha para trás hesitante.
Olha para a porta da igreja.
Fusão com a imagem do Portão da Casa Grande.
Um vulto de homem surge [ contra luz ].

Entra voz em off:
" - O melhor tempo de mim entrou pelo portão de ferro, porta sempre aberta do meu ontem. Por ele entrou meu primeiro amor. Subiu as escadas, correu toda casa, conheceu cada canto, se emaranhou em mim. Meu amor de brinquedo que se quebrou tão ligeiro..."

Mabel volta a olhar para a frente.

Fusão de Mabel de volta à janela.
Vira-se e olha para um retrato de casamento na parede.
[ Close ] - Entra voz em off: "... esse retrato emoldura os nossos rostos... mas não deixa preso nenhum dos nossos traços."

Close no retrato que aparece e some trocando a imagem do casamento para a foto com a família. O retrato fica em cima de um piano.

Fusão do amarelado para o branco [ do velho para o novo ].

Mabel olha para o piano, abre e toca em uma das teclas. [ Visão de Mabel olhando para uma escada na casa ].

Ouve-se os irmãos chamando - voz em off: " - Sobe, Mabel! Sobe! Vem tocar piano com a gente!"
Entra voz em off:
" - A sala do piano ficava perto mas eu não alcancei. Por medo as notas ficaram presas nos meus dedos, não pingaram no teclado."

[ Visão de Mabel tocando em algumas teclas - mãos trêmulas ]. Sobe um assovio > Um assovio comprido e manso.

Mabel caminha de volta para a janela - Entra voz em off: " - Perder foi sempre muito difícil. Ensinaram-me a andar, a ler, a escrever, contar... Não me ensinaram a perder. Perdi muitas vezes. Deixaram-me por vida e por morte. Por morte chorei, mas aceitei. Por vida sempre é mais difícil."

[ Visão de Mabel com a rua já repleta de gente ] - Entra voz em off: " - As ruas tão cheias de gente parecem vazias.".

Mabel fecha a janela - close.
[ Visão de Mabel - fusão ] - saindo pelo portão da casa e indo embora pela rua, observando as janelas dos sobrados.

Travelling das janelas.
Fade In na trilha "Sobrados".


TEXTO FINAL - EM OFF:
" - Quando criança eu contava as janelas e dividia com as pessoas lá de casa. Dava uma janela para cada pessoa e ainda sobravam algumas. Não sabia o que fazer com as janelas que sobravam ou com as pessoas que faltavam.

Eram as janelas do sótão que sobravam de um lado e do outro. As pessoas faltavam em mim.

Por que tantas janelas?
Olhadas de fora eram iguais. Bonitas. Pintadas a óleo. Janelas abertas no meu ontem que virou hoje.

A varanda está vazia de brinquedos. As janelas fechadas. A casa quase vazia. Sobraram já muitas janelas.

Não sei mais brincar de Mãe. Sou mãe de mim mesmo e Professora. Já tenho neto que me pede que não chore e diz: A RUA É MÃE DA CASA, A CASA É MÃE DA JANELA.

Minhas filhas batem a porta e saem. Minhas filhas, janelas do meu amanhã.
Meus netos, janela do meu depois. "


Cresce a trilha de "Sobrados"
Sobem os créditos.











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