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O Andarilho


O ANDARILHO"O Andarilho" é conto de ficção, escrito no final de 1994, baseado em fatos verídicos das narrativas dos jornais a partir de 1992, sobre a guerra da Bósnia.

A guerra, que se estendeu de 1992 a 1995, deixou cerca de 250 mil mortos e 1,8 milhão de refugiados. A Guerra da Bósnia começou quando nacionalistas bósnios de etnia sérvia tentaram evitar que a Bósnia-Herzegovina se separasse do que restava da antiga Iugoslávia.

A sua história se passa em 1998. O personagem central, abandona a sua vida tradicional e confortável, e sai em busca de respostas às suas questões pessoais e humanas. Através de personagens reais e outros místicos/sobrenaturais, passa a compreender e observar o resultado da guerra e situações que ela impôs ao mundo ao redor.

...

· 1º Capítulo ·

Eram quase quatro horas da manhã e mais uma vez meus loucos sonhos me acordavam pela noite: uma estrada de terra onde um homem negro me acompanhava calado. Descíamos um barranco e chegávamos a uma rua linda, quieta, arborizada com casas novas e brancas. No final desta rua, havia uma grande escadaria com centenas de pessoas transitando. Subindo e descendo. Gritavam por mim, comentavam o meu nome, mas nada parecia abalar o "meu guardião".

No tôpo, eu que tentava provar a uma dessas pessoas que, na verdade era de mim que eles estavam falando. Percebi que todos, inclusive o homem que me acompanhava seguiu para um lado oposto com a multidão, e via que estava debaixo de uma árvore estranhamente em cruz. Sempre que me voltava e virava para falar com a tal pessoa que me fez mudar de rumo disperso, eu acordava. Sempre e sempre no mesmo ponto há mais de uma década. Na noite escura, às vezes, fria demais, eram os rascunhos que me libertavam da falta de respostas.

O andarilho persegue sempre aquilo do qual ele foge. Mesmo quando anda por mares atravessando areias, abrindo tendas, ele não se cansa de procurar as suas respostas, e por muitas vezes, acaba desvendando grandes mistérios sagrados pelo tempo. Sua vida só tem início quando ele começa a se encontrar e aos tesouros escondidos em si mesmo. Verdades e mentiras contadas por séculos que ele aos poucos revela através de experiências que viveu entre os homens. Ele só torna-se um sábio quando descobre o segredo do viver e sua simplicidade sem função.

O conhecimento adquire-se, o sentimento por todas as coisas ele terá que encontrar ainda que rejeite algumas emoções, e a humildade, através de tantas quedas, fracassos e decepções, cairá sobre sua cabeça fazendo-o se reclinar. Infelizmente, o destino é implacável.

Mas como posso eu posso amar a quem me trai ? Pensei. A quem me inveja, a quem me debocha e me humilha sem que eu me torne hipócrita? Não posso! Se tenho que escolher entre esse amor e a verdade, prefiro a última. Prefiro ausência de caráter que não faça mal a ninguém, do que a um caráter vil.

Um certo dia, como esses de insônia, olhei nos olhos daqueles que trabalhavam comigo e percebi que ninguém ali jamais havia respondido às minhas dúvidas. E nem iria responder. Resolvi desistir daquilo tudo. O que mais me amedrontava era dar o primeiro passo, como sempre. Havia uma certa tristeza em não poder voltar e ter que arrumar um outro emprego depois de tantos anos. Era um vazio. Ouvia estranhamente sempre vozes desde a infância, que agora se calavam.

O que não valeria a pena? Pensei. Olhei ao redor mais uma vez e senti que a partir dali seriam conseqüências de atitudes minhas que desenhariam uma estrada ou não, um destino ou não. Assim como os nômades que acreditam em conexões de eventos. Abri a porta, desci a escada e, desta vez saí. As ruas não eram diferentes, uma rua após a outra… era tudo igual. Eu mesmo não me sentia diferente, quem sabe, por ter a certeza de sempre poder voltar. Isso sempre nos fortalece um pouco.

Fui em frente. Essa é a estória que vou contar agora.


· 2º Capítulo ·

Depois de ter arrumado as malas, a casa, os pagamentos, deixar tudo em ordem, desci até o porto mais próximo. Um navio mercante seria a solução ideal para os meus gastos e para minhas aventuras. Em doze dias já tinha tudo concluído e legalizado. Partiria três dias depois como um empregado da cozinha, rumo ao Mediterrâneo. Era um homem qualquer a mais apesar de não me sentir assim. Engraçado como sempre nos consideramos melhores do que os outros. Enfim, partimos por quatro meses: eu, o barulho da casa de máquinas e as batatas. Quê segredo havia nas batatas que fazia suar minhas mãos?

Os marujos eram simples, despojados, estranhos serviçais resignados. Após o primeiro dia, depois das apresentações, nunca mais vi o capitão. Para ser sincero, nem um oficial, longe disto. Não era de minha alçada. Mal sabiam eles que eu estava ali por opção ou loucura. Porém o que interessa é que o ser humano tem uma hostil necessidade de oprimir a quem já se sente inferior. O chefe da cozinha e eu começamos a travar ofensas sutis. Talvez sentisse em mim uma ameaça, ou sei lá o quê. Não me julgava competente.

- Não pretendo ser cozinheiro, eu repetia sempre.
E ele ofendido esbravejava: - Mas já que está aqui, faça o seu serviço direito.

Talvez ele estivesse certo. Só que a maneira que ordenava... aquilo não era necessário. O homem se amedronta consigo próprio e na insegurança prefere destruir e humilhar. Seja lá o que ele tivesse dito aos outros, começaram a me ignorar. Novamente o destino me cobrava alguma coisa que nunca entendi.

Éramos agora eu, a casa das máquinas e as batatas, que triplicaram, e só haviam passado dez dias.

Quanto mar! Quanta água ! Será que invadirá mesmo o planeta um dia? Pensava. Divagava. Passava o tempo. O que mais poderia pensar senão bobagens? Mas estava triste. Como poderia mudar as coisas se estava vivendo a mesma vida que vivi em terra por trinta anos? Cheguei á uma conclusão: o problema era eu.

O mar não respondia, e, então uma noite veio o vento e a tempestade. A fúria dos deuses, como gritavam. O punho sagrado do senhor, sobre o nada em imensidão. Águas, raios, ondas gigantescas aquele navio, por um instante, não me pareceu tão seguro de tanto que inclinava.

Estávamos sobre a proteção de anjos e demônios naquele momento. Nada além deles poderiam nos ajudar. Estava escuro. Os faróis do navio acessos, todos desesperados. Um vazio sem fim. Os marujos percebendo que a tempestade se alongaria noite adentro, prenderam-se com uma estranha roupa às argolas fixadas no convés do navio, própria para não serem lançados ao mar.

Foram dezessete horas de pânico e desespero, onde com certeza eu não queria ver o mar tão cedo novamente e não via a hora de atracar num daqueles portos previstos. Como se não bastasse creditaram a mim a má sorte, visto que em oito anos daquela mesma rota, nunca pegaram tal "sangramento do mar", como eles chamavam. Que ironia! Me abandonaram no porto mais próximo.


· 3º Capítulo ·

E lá estava eu, perdido no porto seguinte, algo como o sul da África, talvez, meio deserto, meio planície partiram. Aquilo não era sob forma alguma justo ou legal, a tal ponto de ignorarem as leis de um país. Um velho marujo vendo o meu desespero, e, já estava em terra, aposentado há muito tempo, deve ter visto coisas piores ou semelhantes nestes anos, se aproximou:

- A sua sorte é grande, meu amigo. Estranhei que falasse a minha língua, mas não consegui dizer nada.

- Geralmente esses marinheiros mercantes têm outros métodos. - continuou ele suavemente.

- Como assim?! - Precisava de uma resposta ou qualquer coisa parecida. Como posso ir embora daqui?

- Eles o devem ter achado muito especial. Algo feito um bruxo, ou...

- Bruxo?! -, interrompi.

- Os marinheiros são os povos mais místicos que eu já conheci.

- Existe algum consulado, um escritório qualquer coisa do gênero por aqui?

- Aqui?! - Ele sorriu ironicamente. Eu acho que eles o queriam à distância por muito tempo. Nunca soube de ninguém que tivesse saído daqui antes - o velho saiu murmurando e me deixou parado ali, extasiado.

- Como assim?! Gritei. - Me diga ao menos, aonde estou !

Não era a primeira vez que eu escutara tal frase, a respeito de ser um tanto estranho. Mas aquilo não estaria acontecendo comigo. Me apavorei. As coisas já não estavam como no início.

Olhei para os lados: era só aquilo. E tudo o que via eram algumas casas pobres, velhas e sujas à beira do cais. Não parecia ter habitantes ou comércio. - O que eu estava fazendo? Um andarilho não tem seu eixo no próprio centro, é um nômade. Porém, eu estava no meio de alguma coisa que não concebia. A realidade é que o único lugar que eu queria estar era no meu escritório trabalhando cheio de olheiras. Já não queria mais essa aventura. Queria um café, uma cama e uma televisão.

Devo ter ficado parado ali, à beira do cais, por quase uma hora inteira. Quando me dei conta não sabia aonde estava ou qual o tipo de língua que falavam. Foi quando percebi uma jovem negra com máximo uns vinte anos, me observando. Parecia estar ali, senão o mesmo tempo que eu, um pouco mais. Ela aproximou-se, tocou no centro de minha testa, e fez sinal para que eu a seguisse.

- Você pode me ajudar? Falei entusiasmado. Ela era linda. De uma cor única, de olhos azuis, ficando claro uma estranha mistura de raças. Seus cabelos eram lisos e compridos.

- Você pode me ajudar a sair daqui? Insisti. Ela abriu as palmas de minhas mãos e repetiu o mesmo gesto. O que ela estaria querendo me dizer? Pensei. As coisas estavam acontecendo tão depressa e muito diferente do que estava procurando.

Ela nada falava, e acho que até que mesmo que falasse não entenderia a sua língua, pensei. Contudo, seus olhos pareciam sinceros, puros.

Quantos olhos que nos parecem sinceros nos ludibriam, não é? O ser humano é o mesmo em qualquer tempo e lugar, era melhor me precaver. Como não tinha outra saída, resolvi segui-la.


· 4º Capítulo ·

Caminhamos por quase toda a tarde toda, e me arrependi de não comprar algo comestível do primeiro mundo. - Mas aonde?

Resolvi chamá-la de "Zambi", porque sempre que queria chamar a minha atenção gritava : Zambi! Zambi! Tinha água e algumas coisas num saco, parecido com batata doce ou mandioca, só que mais aguado. Cada vez que eu comia me enjoava por mais de duas horas. Seja lá o que fosse matava minha fome por um bom tempo. Era uma estreita estrada de terra na saída da cidade do porto. As poucas pessoas que vi eram de cor, por isso deduzi estar perto da África ou algo parecido. Mais tarde, quando resolvi escrever esse fatos, lembrei que jamais soube o nome deste lugar ou tive interesse em perguntar. O certo é que saberia voltar de olhos vendados.

De repente, chegamos a um vilarejo, ou aldeia, repleto de tendas de lona. Era um lugar estranho, algo misturando um estilo árabe a um acampamento militar. Não havia luz, encanamento, e meus pés pareciam estar em carne viva, e, haviam camas. Estava morto, irritado, com fome, sede e uma terrível vontade de tomar banho. Precisava de água. Era uma espécie de calor seco e poeirento . Quando me notei, já estava com raiva de tudo e de todos que nem conhecia ainda principalmente dessa " Zambi", louco para ir embora.

Era de verdade um lugar estranho, algo pairava no ar. Não haviam jovens, somente velhos e crianças. Não conseguia entender, e acho que até que nem queria, precisava apenas descansar. Amanhã iria até o porto, e perguntaria ao marujo sobre isso e sobre muito mais, e em pouco tempo estaria em casa. Encostei perto de uma tenda, e caí.

No dia seguinte, acordei com o sol alto e dentro de uma das maiores tendas.

Estava mais fresco que o dia anterior, mas ainda suava demais.
"Zambi" entrou na Grande Tenda, como também resolvi chamar, e parecia ter tido um sonho maluco que pensei que houvesse terminado.

- Zambi! Falei com gestos. - Você está me entendendo?! E, aqueles olhos azuis-céu pareciam mais lindos pela manhã. - Você está me entendendo? Insisti, enquanto ela me observava.

- Ô, meu Deus! Que lugar maluco é este?

- Zambi! Ela respondeu .

- Você entendeu o que eu disse? Já estava me animando. Esta aldeia se chama Zambi, é isso? Um estranho vento invadiu a Grande Tenda sem mais nem menos, tão forte que alguns véus se soltaram. Ela desconfiada , arregalou seus olhos e seguiu o vento.

- Era só o que faltava uma mulher que anda com o vento. Ninguém chega a algum lugar por acaso, mas porquê aqui? Se contasse a quem quer que fosse com certeza me internariam. Resolvi segui-la novamente.

Levantei o pano da porta da Grande Tenda e quase gelei.


· 5º Capítulo ·

As crianças que vi eram magras como um braço; algumas com estranhos ferimentos pelo corpo nú que pareciam soltar pus, uma gosma espumante -, outras, manchadas por algum tipo de peste; as menores eram rodeadas por mosquitos, feito abutres em carne morta. Não inventei uma só palavra. Era o horror da realidade. Não tinham forças para se abanar. Olhavam-me com olhos atentos e parados como se fizesse o maior esforço para estarem de pé. Não sorriam. Não falavam.

Não tinham uma sequer expressão no rosto . Não sabiam o que era comida, a não ser uma pasta de estranhas misturas. A água tinha cor e gosto de barro. Os velhos, na sua maioria sentados, pouco mexiam os olhos, me olhando com candura e resignação. Só com o tempo fui compreender que me olhavam com esperança. Deviam ter mais de sessenta anos, e as crianças todas com menos de dez. Cinqüenta anos era o vácuo entre aqueles dois mundos.

Todas as ciências das quais pude tomar conhecimento, toda a história que estudei, toda filosofia que consegui entender não haviam me preparado para tal visão. Não haviam palavras.

- Qual o tipo de emoção que resiste aqui? Pensei. Por quê eu?! Não poderia mudar nada com a minha presença. O sol alto, esquentava minha cabeça e um silêncio invadia a minha alma fazendo com que eu percebesse que eles, é quem mudariam a minha vida. Daquele instante em diante não poderia ter mais o mesmo eixo. Começavam os meus estranhos rabiscos e desenhos indecifráveis.

Haviam se passado três dias, e desde então saía dali. O quê haveria aldeia adentro? Engraçado que quando saímos dos limites de nós mesmos, temos sempre a grande capacidade de esperar o pior. Porquê teriam me dado a Grande Tenda? Foi quando comecei a observar melhor algo que me chamava a atenção há dias. Era um tipo de exército local. Um símbolo estranho estava desenhado em todas as tendas. Eu nem imaginava o que poderia significar.

Resolvi conhecer a aldeia minuciosamente. É curioso e simples, mas sempre acontece a mesma coisa: geralmente as coisas que estão mais perto de nós são as que nunca realmente percebemos. Seja algo importante ou não. Um inimigo à distância, é mais fácil de ser reconhecido do que aquele que está nos beijando a mão.

Uma fila de crianças seguiu-se a mim. Os velhos saíram à porta de suas tendas, e, percebi que aqueles que eu pensei que fossem poucos, eram na verdade numerosos. Quase uma centena. Dei três voltas pela aldeia, e algumas crianças eram tão fraquinhas, que ainda estavam cansadas na primeira volta tentando me seguir.

Porquê os outros países não interferem na vida dessas pessoas? O quê mais eles precisam ver? Pensava.

Eu era o único homem branco por ali, e por mais que tentasse controlar meus pensamentos, tinha uma arrogância de superioridade em mim, quase infantil, mas que não podia evitar. Eram tantas as descobertas, que me perdia no raciocínio. Eu mesmo não me acompanhava.

Coloquei a mão no bolso da calça, já transformada um shorts, e descobri um amontoado de dinheiro amassado e perdido.

Uma soma considerável que em qualquer outro lugar já teriam me matado para consegui-lo. Só que ali de nada valia a não ser para me fazer sentir mais seguro, de uma forma infantil mais uma vez. Mas eram esses os meus sentimentos. Não podia renegá-los. Estava ali por opção e poderia voltar a hora que quisesse com esse montante. E por quê não o fazia? Porque não virava as costas e ia embora? Não sei! Poderia inventar setenta coisas para entreter a história, enganar você e a mim. A verdade é que um estranho sentimento me segurava ali, apesar de por muitas vezes, sentir nojo de estar vivendo daquele jeito e com aquelas pessoas. Por mais que seja duro e nos conheçamos de uma forma que não queremos admitir, sempre é preciso reconhecer nossas fraquezas e, aprender a conviver com elas.


· 6º Capítulo ·

Era o quinto dia e Zambi chegou fazendo alarde, berrando, aos prantos a tal ponto que todos "correram" para as suas tendas apressadamente. De onde veio súbita energia? Ela me fazia sinais malucos, bruscos, falava rapidamente uma língua, para mim, ainda estranha. Tudo bem pensei. Entrei na Grande Tenda e resolvi ficar por lá. Mais do que depressa ela me arrancou me puxando fortemente, não só para fora da Tenda como para fora dos limites da aldeia. Depois de tanta insistência, resolvi obedecer.

Ficamos escondidos por mais de duas horas entre uma moita e algumas pedras, deduzindo que ali deveria ser seu esconderijo por algum motivo. Ela estremeceu, quando começamos a ouvir uma espécie de cavalos, carroças e, passaram por nós algo entre uns dez homens a cavalo, e cerca de umas quarentas mulheres divididas em três carroças. Eles pareciam um pouco embriagados. Berravam. Cantavam. Elas, de cabeça baixa, pareciam não ter vida, inertes, assim como os olhos de Zambi naquele momento. Preferi também não fazer um movimento sequer até ver o que iria acontecer. Eram soldados, e não sei o que poderiam pensar. Chegaram ao entardecer, e senti que esta seria uma longa noite.

- Quem são? Tentei me comunicar com ela de novo, mas Zambi se escondera tão aflita que parecia não querer nenhum tipo de conversa.

Zambi descansava, a lua estava radiante e um clarão diferente vinha da aldeia iluminando todo o lugar. Talvez fosse uma espécie de culto, cerimônia sagrada para eles eu precisava verificar.

Ao chegar mais perto da aldeia iluminada, todo o lugar era uma grande fogueira. Eu havia deduzido certo. Foi quando me dei conta de que era a primeira vez que via fogo por ali desde que cheguei.

Fui me aproximando sorrateiramente até encontrar uma encosta segura nas pedras. Meu coração descompassado tamanho o medo de ser descoberto. Porém, o que vi, preferia jamais ter visto. Algumas coisas na minha vida, eu sempre achei melhor deixar para a imaginação do que realmente presenciar.

A Grande Tenda era a que pertencia aos soldados, por isso vivia vazia e ninguém tinha a coragem de ocupá-la. Eram brancos, fortes e tão saudáveis que pareciam não combinar com a atmosfera do lugar. As mulheres eram negras, mulatas e bonitas. Estavam vestidas com tecidos limpos, misturando seda indiana com cangas africanas. Trouxeram comida, água, e um porco assava sobre o fogaréu.

De onde vinham todos eles? Pensava. O que representava tudo aquilo que parecia sobrenatural? Tinham armas e muita bebida. Onde há uma semana só se ouvia o som do vento e dos animais, parecia um grande delírio.

Com o tempo fui aprendendo a diferenciar o vento da manhã com o do meio-dia que trazia uma névoa de poeira, e fazia o ar ficar mais pesado. Já sabia dizer perto de que horas estávamos sem ao menos precisar olhar ao relógio.

Tinha aprendido inclusive, que quando as trovoadas começam, um tempo entre elas, determina o tempo da chegada da chuva. No mar os marinheiros precisam dessa referência para agilizar os materiais soltos no convés. Se da primeira trovoada para a segunda houver um intervalo de cinco minutos, e da segunda para a terceira este tempo começar a se reduzir sucessivamente, a chuva cairá logo. Caso contrário, poderá até nem a chegar por ali. Eu sei! Era ridículo eu estar pensando em tudo isso naquele momento -, e, aqueles soldados pareciam estar debochando de tudo que já tinha aprendido com a própria natureza. Por que não poderia me juntar a eles? Comer comida novamente, beber água limpa, emprestar um cavalo, ir embora e voltar para casa.

O que eu estava fazendo a no mínimo vinte mil quilômetros longe de casa, escondido no meio do mato em plena madrugada? Eu já não era mais um andarilho em busca de respostas, era um idiota que me julgava arrogante e mais importante do que todos, arrependido e, mais uma vez rodando em círculos sem chegar a lugar algum. Um acúmulo de tentativas e fracassos que me fizeram sentir um completo inútil e derrotado nos últimos dez anos de minha vida. Era resignado demais, às vezes imponente demais, e pensava tanto antes de agir, que por muitas vezes o tempo agia contra mim e já era tarde. Queria ser grande, mas não queria fazer esforço ou me dedicar para tanto. Foi quando percebi que os soldados mandaram as mulheres se despirem. E, elas, sem que eles tivessem reluta de alguma forma, se despiram. Eram dez soldados para vinte mulheres. Deduzi que as outras estariam nas tendas por algum motivo. Uma cena triste e deprimente.

- Por quê sempre quando vemos alguma coisa injusta demais, nos causa repugnância, mas tememos por nossa segurança e indiretamente - ao calarmos - compactuamos com as atrocidades?! Por quê não nos tornamos instrumentos de uma coragem divina, épica, e criamos qualquer senso de dignidade e nos rebelamos? É difícil não pensar em violência quando alguém violenta aquilo que não lhe é de direito. Responder à isso com sabedoria, seria inútil.


· 7º Capítulo ·

Os soldados violentaram as mulheres, cada qual até três ou quatro, rindo de suas proezas, bêbados porcos, enquanto elas choravam em silêncio. Tudo em meio ao fogo. Todos à mostra para exibição animalesca de um ritual sim, próprio de uma magia desconhecida pelos grandes magos. Os grandes feiticeiros estariam sentados sobre suas cabeças assistindo àquilo tudo? Ao final, caíram tortos na Grande Tenda e dormiram o dia inteiro.

- Haveria uma Lei Maior capaz de punir tudo isso? Seria blasfêmia ou sacrilégio pensar que talvez, Deus, lança na verdade a discórdia e a disputa sobre a Terra, para que alguns poucos, somente, saibam como encontrar a paz e a união ?

Por três noites esses vandalismos se seguiram, com trocas de mulheres por grupos.

Zambi saía logo cedinho para trazer água limpa e pão. Não me se sentia pior comendo e bebendo suas comidas. Meus dentes precisavam morder algo. Na hora compreendi o pavor que ela tinha de ser descoberta, tanto que até eu já tinha desenvolvido um estranho oitavo sentido de perceber a chegada dos soldados pelo vento. Eu já estava bem mais magro, mas ainda o raciocínio lúcido.

As mulheres eram mães ou o que restou delas - daquelas crianças e parentes dos velhos, filhas e sobrinhas. Os soldados as levavam da aldeia para prazeres pessoais, talvez pelas viagens afora, trazendo-as em tempos para visitar os filhos.

- Compaixão?! Com certeza não! Deveria haver algum outro interesse oculto. Hoje alguns anos depois, vim a saber de suas histórias verdadeiras: os maridos eram marinheiros ou pescadores humildes sem pretensões às riquezas. As esposas e filhos tinham vidas dignas e sadias. Aí, houve a invasão pelo domínio de terras. A guerra civil que parecia que nunca chegaria até lá, chegou rápido com sua subdivisão de cidades e estranhas religiões, onde a mulher não era um ser humano, era um instrumento de uma ignorância qualquer. Os marinheiros foram mortos. Eram semeadores, não guerreiros. E aquele porto de sobrevivência tornou-se porto estratégico de abastecimento e descanso.

Nenhuma embarcação desconhecida ou sem aviso de chegada atracava por ali, a não ser por um estranho tráfico que nunca ficou claro aos outros países.

Os soldados não permitiam ajuda específica àqueles velhos e crianças, porque os mesmos não tinham função alguma para a guerra. As mulheres, ao contrário, eram ótimas empregadas, satisfaziam seus desejos, eram inofensivas e tinham um efeito fatal estratégico para a guerra: ao engravidá-las, faziam a sua limpeza étnica, povoando aquele pedaço de terra com seu sangue, subjugando e humilhando àqueles povos. Meu Deus ! Eu pensei. E, eu estive no meio daquilo tudo. Algumas tentavam abortar, e eram espancadas até caírem, para servir como exemplo.

Será que, para esses seres humanos haveria alguma saída?!

Coloquei Zambi em meus braços, e após três dias, consegui dormir.

Acordei com o barulho dos cavalos e carroças e Zambi não estava mais do meu lado. Levantei rapidamente. Eu me torturei anos à fio em busca de respostas para tantas questões metafísicas com uma vida insignificante. E agora estava no meio de algo tão grande que tornavam minhas perguntas ainda maiores. O mundo estava aí para que eu pudesse observá-lo e quem sabe, encontrar as respostas.

Incessantemente, li muitos livros que, às vezes, tinham uma linguagem difícil e tamanha profundidade, que demorava anos para entender seus significados.

- Um homem aprende a suportar uma humilhação constante? Ele realmente precisa do sofrimento para aprender a construir sem destruir?

Estava em meio à guerra santa, sem leis, julgamentos ou punições. Tudo era permitido pela vontade da maioria, do mais forte. Os deuses eram cegos e indiferentes -, pois estavam tranqüilos e seguros no céu.

Olhei para o céu, nele, revi os olhos de Zambi. Uma oração me veio no coração. Adiantaria?! Ela engana a fome, ludibria a dor e fantasia a realidade, porém, alguém precisava me ouvir. Nem que fosse o demônio. Tais pensamentos, em tempos normais quando me via em casa, sozinho, me apavorava mas ali nada significava. De repente, parece que quando evocamos uma força maior, em alguns momentos especiais, nos responde. Foi quando senti como se alguma pessoa estivesse bem atrás de mim. Minha camiseta colava em meu corpo e um frio me desceu pela espinha junto ao suor. Devia-se ao calor e a tanto nervosismo, pensei. Mas porquê me faltava coragem para olhar para trás?


· 8º Capítulo ·

Por muitas vezes, me vinha essa sensação de estar sempre acompanhado.

- Chegará o dia em que não conseguirá mais transcrever tristezas, e terá paz de espírito!. - Ouvi . Meu coração disparava. Mas, ainda, não olhava para trás.

Aquela cena não me era estranha. Nela, havia algo que me era comum. Resolvi mais do que depressa sair dali e ir para a aldeia.

Quando cheguei, todos pareciam me olhar estranhos, desconfiados.

Eu tentava me comunicar, mas era em vão. Estava meio irritado, o meu corpo doía, chutava os lixos que os soldados deixaram pelo caminho. Aquela Zambi que me enfeitiçara, agora me irritava e entediava. Ela percebeu e se afastou.

Era uma rotina empoeirada, e uma parte de mim estava sendo obrigada a ver o tempo passar. Nada ali iria mudar em mil anos, e me sentia um medíocre espectador vendo o curso de minha vida interrompido. Não sabia se estava colocando os pés pelas mãos, ou, mesmo se interferisse me tornaria mais um corpo perdido. Não era hora de filosofar e nem de criar histórias de ficção. Talvez a minha única missão fosse andar, observar o já observado, e descobrir o que já estava descoberto.

A minha visão não era singular, e tenho que admitir que a convivência com aquele lugar estava me transformando em alguém menos arrogante. Já não me dava tanta importância e nem tinha tanto interesse pelos meus assuntos ou em contar a minha vida e os meus feitos, como fazia incessantemente com os amigos na minha "antiga civilização moderna". Eu não era essencial, e era uma dura realidade admitir isso. Estava sentado em uma pedra perto da aldeia, pensando no que eu era, quando ouvi:

- Você é um homem e nada além disso - disse a voz. Eu tremi como se o chão estivesse se abrindo sob meus pés.

- Não adianta você sentar ao vento e não comungar com ele. Continuou a voz.

- Ô, meu Deus do céu, resmunguei. Só me faltava essa...

- A oportunidade de eu estar aqui, é a mesma de você poder me ouvir. Não se assuste, disse a voz.

- Quem é você ?
- Uma voz que também é sua de seu coração.

- O que é que você quer?
- A mente está lhe traindo. Continuou a voz. Não pense, pois assim você me mandará embora. Não use a sua razão.

- Não estou pensando nada, só estou com medo.
- O seu medo é a sua razão em exercício. Você se sente em perigo, mas não há perigo algum.

- Então o que é que você quer? Estava ficando nervoso.
- Você ! Disse a voz firme e branda. O mundo parecia estar escurecendo ou caindo. Lembrei-me de quando me contaram sobre incorporar um espírito. Era um misto de embriaguez alcoólica e de uma labirintite aguda.

Me apavorei e tentei me levantar.
- Olhe ao redor! Ordenou a voz.
- Não consigo! Não quero! -, respondi.
- É somente a minha voz, de uma alma que já foi sua em outros tempos.

Lentamente o mau estar foi passando e aquela voz foi me convencendo de que era apenas uma linda manhã à minha volta. Um sol forte que aumentava o medo.

- Não tenha medo de você mesmo -, continuou.
- Acho que estou mais calmo, só que não tenho coragem de me virar ainda.

Repeti a frase e percebi que a voz não estava mais comigo. Fui me virando, virando e realmente nada havia. O vento soprou forte como em todas as situações importantes em minha vida. Sempre prenunciava alguma coisa que infelizmente só sabia decifrar depois de acontecido. Zambi surgiu na minha mente como que trazida com o vento. Meu coração a sentia forte como se ela estivesse ali comigo.

Aprendi nesses anos, que a primeira impressão, jamais nos engana com os fatos ou com as pessoas, porque é a sensibilidade quem percebe e capta, sem análises racionais não permitindo que os fatos posteriores interfiram no julgamento. É como a intuição desse momento.

A voz perdeu a importância. Voltei para a aldeia atrás de Zambi, já que ela se tornara, para mim, mais importante.


· 9º Capítulo ·

Era um tempo de tranqüilidade. Quem sabe até demais para tudo aquilo que estava vivendo. Mas tinha que viver um dia após o outro somente, sem atropelos. Um adolescente inconseqüente, talvez; um tolo mais ainda que permitia se acostumar àquilo e se apavorar com uma voz ao vento, fruto quem sabe, de um estado patológico grave. Mas era a única vida que eu tinha no momento.

Naquela noite tive sonhos estranhos com punhais, crianças recém-nascidas. Alguns mestres sempre nos vêm em sonhos. Só que, se repararmos bem, quando os sonhos parecem importantes a ponto de nos revelar, claramente, o futuro, tal revelação nos vem a nível inconsciente e nos deixa com uma estranha sensação durante o dia inteiro, após acordarmos. E este seria um desses dias. Acompanhado de uma sensação que oscilava entre algo entre paz e tristeza.

Neste dia, enfim encontrei Zambi logo cedo, que estranhou o meu abraço apertado.

Estava disposto a ajudar, por fim ao marasmo de idéias sem ação, e resolvi conhecer coisas novas como, por exemplo, um cercadinho com dois porcos e três galinhas. Tudo intacto, parado. Eles morrendo de fome, e a comida sendo guardada para os soldados. Esfuziante de coragem que estava, corri para o cercadinho para poder distribuir a comida. Zambi me agarrou pelo braço. Gritava me empurrava, até que me afastei. Eles preferiam morrer de fome do que correr riscos. Não se revoltavam. Era somente mais uma atrocidade, pensei.

Mais à frente, deparei com uma elevação na montanha, encosta, ou sei lá o quê. Uma pequena e fininha cruz circundada por duas árvores chamou a minha atenção. Zambi, não entendia pois para ela, era tudo normal.

Eu deveria estar tão estranho que ela parou para me observar. E eu, chocado diante daquela cruz. Esteve ali o tempo todo a cruz dos meus sonhos. A tal cruz das minhas insônias. De quando chegava ao tôpo daquela escadaria.

O vento novamente soprou, e ela apertou minhas mãos. Era um grande enigma um grande jogo que o destino estava jogando comigo. Aquele pedaço de terra, de alguma forma fazia parte da minha vida e eu precisava ter vindo até ele.

Os dias se passavam e eu esperava a manhã como uma criança que quer sair para brincar, ao acordar. Corria até o pé da cruz, e lá ficava por horas sem me dar conta mas as respostas não vinham. Se não fosse o lugar sagrado de minhas respostas, o quê mais seria?

Zambi me acompanhava quase sempre, e nos entendíamos bem, mesmo não conversando. Aos poucos fui compreendendo que a palavra faz parte de uma outra dimensão que não era aquela. Não era preciso, não faria diferença. Os homens falavam muito e nada diziam; nós falávamos línguas diferentes, e nos entendíamos. Havia um papel para ela nessa minha história, que no tempo certo eu sei que descobriria.

Minhas calças estavam largas e sentia-me um pouco fraco, admito. Talvez estivesse começando a ficar doente e isso começava a me preocupar.

Zambi e a cruz eram boas companhias agora, mas estava com medo que minha vida acabasse de repente, sem que eu tivesse realizado alguma coisa.

Desejei voltar e levá-la comigo, para o mundo que um dia achei podre e cansativo, mas que era tão bom, limpo e bonito.

Ela sentiu a minha melancolia e suavemente me beijou a boca. Fiquei confuso por um instante meio bobo. Um desejo invadiu o meu corpo, não vou negar. Uma mistura de amor e paixão por sua beleza. Um corpo bem delineado um seio que transparecia pelos tecidos quando ela suava. Queria tê-la em meus braços, pelo meu corpo e sabia que ela sentia o mesmo pela maneira como me olhava. Queria sentir o seu corpo. Mas não nos mexemos, não nos tocamos. Começamos a voltar para aldeia.

No meio do caminho ela deitou no chão, apalpou, cheirou e saiu correndo, chorando, como se tivesse descoberto alguma coisa.


· 10º Capítulo ·

Bem perto da aldeia, vimos que um soldado percebeu a movimentação e nos jogamos contra as moitas. Eu pulei por sobre as pedras e ele veio gritando uma língua diferente da de Zambi. Todos os guardas se alertaram e aproveitei para me distanciar mais um pouco. - E, Zambi? Pensei. Os soldados com armas empunhadas começaram a vasculhar, berrar, pareciam índios em atos de guerra. Estava desesperado por Zambi. Dois soldados haviam passado por ela que se esquivou bem, se escondendo deles. Aí veio o terceiro e a levantou como a uma presa em prêmio pela caça. Meu coração quase arrebentou de raiva e medo. Eles riam e falavam sua língua maldita. Empurravam-na de mão em mão em círculos. Seus olhos desesperados me buscavam, mas o que poderia fazer? E então, levaram-na com eles.

Esperei a noite cair totalmente para me aproximar da fogueira. Meus olhos não acreditavam. Uma falta de ar invadiu meu peito. Meu coração doía, literalmente. Chorei por não saber o que fazer.

Procurei a voz e não me vinha. Chamei por Deus ou qualquer outra coisa que pudesse ajudá-la naquele ritual maluco. Cheguei mais perto e a vi entre as mulheres escolhidas para aquela noite. De repente um dos homens que parecia ser o chefe dessa "tribo de soldados" se aproximou e a tomou nos braços. Zambi esperneou, gritou e apanhou até cair, como de costume entre eles. O meu ódio era grande. Eu sabia o que iria acontecer e não fazia nada. Ele a tomou pelos cabelos, rasgou-lhe a roupa, tirou um pouco de terra que havia de seus ombros, amordaçou-a e a violentou.

Meus olhos não se mexiam. Acredito que estive em transe hipnótico, pois sentia um formigamento nas pernas e não conseguia me mexer. Me amaldiçoei.

Sempre tive medo da incorporação de espíritos em mim. Contudo se naquele momento houvesse, algum espírito guerreiro por perto, queria que me tomasse o corpo e lutasse.

Outro soldado se seguiu ao primeiro. E outro, e, outro. Consegue imaginar isso? Não é estória. Ou melhor, é uma história real. Nada foi criado ou inventado para entreter essas linhas. Eu socava uma pedra mais próxima a mim fazendo com que o punho de minha mão ficasse em carne viva, a tal ponto de não conseguir dobrá-la.

Zambi não mais relutava. Não mais reagia. A sua dor transcendia o físico indo para a alma. Dor que ela carregaria através dos séculos. Por encarnações. Uma estranha sensação iria lhe acompanhar por toda eternidade e sempre se acentuaria quando ela presenciasse atos vis.

Porquê algumas pessoas sofrem tanto, enquanto outras não ?!

Algumas das mulheres não tinham nem a coragem de levantarem as suas cabeças. Outras pareciam achar tudo aquilo já mais do que o normal e não viam a hora de acabar para que pudessem voltar às suas tendas. Porém uma delas, contorcia suas mãos e o corpo à cada maldade que faziam com Zambi, e chorava com alma.

Depois de um certo tempo, eles terminaram e deram-se por contentes e satisfeitos. Pegaram suas mulheres e beberam até cair.

Zambi não se mexia no chão. Foi quando a mulher que chorava cobriu-lhe com alguns panos, enxugou suas lágrimas e a levantou. Porém um dos soldados a puxou pelo braço e Zambi caiu novamente. Aos poucos ela foi se refazendo, criando forças, e dirigiu-se a uma das tendas lentamente. Era um misto de vergonha e medo que ela parecia ter.

Dei a volta por todas as tendas e a vi entrar.

O que ela esperava que eu tivesse feito e que não fiz? Pensava. Estava com vergonha. A mesma que a dela, talvez, mas resolvi entrar na tenda.

Zambi não se mexia deitada no chão. Virou um pouco o rosto e me olhou. Não sabia o que seus olhos me diziam, estavam fixos. Não consegui encará-la e fugi de seu olhar.

Havia com ela um velho que a limpava com um pano úmido, e duas crianças dormindo. Tanto o velho quanto as crianças já estavam tão acostumados e resignados, que não demonstravam nenhuma emoção. Era triste, mas, a realidade era que a salvação deles só se daria com o fim de suas vidas. Era um mundo à margem, perdido, esquecido de todos. Havia também um vento que uivava pelas frestas da tenda. Era um canto de dor, um choro através dos anos atravessando fronteiras invisíveis do grande portal do tempo, transpondo pontes dos séculos.


· 11º Capítulo ·

O Senhor do Tempo

As almas abertas, os gritos perpetuados até hoje.

Foram babilônicos, foram judeus, muçulmanos, euros, japoneses e hebreus. Foram ingleses, otomanos, índios, irlandeses e romanos. Foram americanos, latinos, negros, egípcios e indianos. Foram alemães, sérvios, croatas e angolanos.

Vozes solitárias procurando pelo amanhã, sendo caladas, porque a guerra sempre foi e será santa. Enquanto alguns procuravam verdades, outros destruíam ideais em nome do Estado, do amor e da compaixão. A barbárie sempre aniquilou a alma e a psique do homem, e não é considerado como crime de guerra, antes e depois que Jesus Cristo pudesse ver.

Quando a dor da alma é grande os medos desaparecem. E naquele momento, medo era uma palavra distante. Tentei imaginar o que esta alma estaria fazendo em um certo cais em um certo ponto, àquela hora, naquele dia. Nada poderia ser por acaso. Era uma melodia triste num cenário de horror. Estava me apaixonando por Zambi, já não podia negar isso, pela sua causa e por sua dor. Engraçado como nessas horas nos associamos aos fatos que vivemos. Tudo tem seu tempo.

Uma certa vez, a paixão se lançou a meu coração e só fui viver esse amor quatro anos depois, quando teve seu tempo. Lembro-me de que ela me procurava em seu coração pelas ruas, por telefonemas silenciosos, por cartas anônimas, e ficamos separados pela crença de que um não gostava do outro. Quatro anos depois, eu a procurei e vivemos um curto sonho de amor. Houve o tempo para começar, viver e terminar. Quando a minha dor foi sufocante, ela me soprou vida nova. E eu quando estava refeito, parti deixando-a repleta de amor eterno pois todo o amor mal resolvido se prolonga em nossos corações.

Até hoje não sei se fui correto em minha atitude, por ter querido sair para viver um mundo diferente do que ela me propunha, e meu coração se angustiava por não estar livre ao seu lado. Aprendi então, que o verdadeiro amor tem que ser livre, para que ele se realize.

Naquela época eu já era um andarilho, com certeza, só que um andarilho de corações. Pensando bem, não era melhor do que esses vândalos. Cometi crimes cotidianos tão ferozes ao amor, à vida, à dignidade do outro, quanto eles e, que também eram vangloriados pelos companheiros do dia-a-dia, "como bons crimes do prazer".

É sempre a mesma história: tudo tem dois lados em um mesmo lado de uma mesma moeda. É a farsa de dois personagens com atitudes opostas, porém de comportamentos iguais que só vê o outro para servi-lo, retirando dele os meios para realizar seus sonhos, porque assim ele se torna dependente de você. É um grande jogo e eu jogava bem. Só assim era feliz.

Um dia, olhei no espelho e vi a minha mediocridade de frente, e, resolvi aprender a suportar a dor, me libertar desse tipo de sofrimento que era grande e não me dava conta, e começar a aprender a amar.

Comecei por não compactuar com injustiças, traições ou abusos de qualquer espécie. Perdi muitos "amigos", é obvio, muitas oportunidades também. Mas eu não queria ser mais uma peça nesse tabuleiro através dos séculos.

Essa era a melodia triste daquele momento. Levantei e olhei pelas frestas da tenda: o sol já queria nascer e muito embora a dor fosse ainda grande, a luz daria um outro sentido para as coisas. Entre as pedras como os lagartos do deserto, relutei, mas adormeci sob a força do sol.

- Você já deu um primeiro grande passo para ser um verdadeiro andarilho. Escutei a voz novamente.


· 12º Capítulo ·

Acordei sobressaltado e fiquei quase cego com o clarão do sol, não parecia ser a terra seca e árida em que eu estava deitado. O vento me trouxe o cheiro do mar, mas ele estava tão longe, pensei.

- O primeiro grande passo do andarilho é saber reconhecer os seus erros e mudar os seus atos sem vergonha. E neste momento, o seu coração está vivendo a dor de se reconhecer.

Continuei a ouvir. Estava claro e forte em meus ouvidos, não era ilusão.

- Não tema, meu andarilho! Eu sou o guardião desta tua caminhada. Não lhe desejo mal. Hoje eu sou a luz que lhe cega, mas amanhã saberá me suportar e me reconhecer de olhos vendados.

- Porquê estou aqui?! Balbuciei ainda com o rosto colado à terra.

- Porque foi assim que você escolheu muito antes até mesmo de você saber.

- Mas não era isso que eu procurava, não desta maneira. Não sei nem em qual parte do mundo estou.

- Foi lhe dado o barco, meu andarilho, mas os remos e as velas só você pode conseguir, e terá que encontrar sozinho. Depois de o haver encontrado, ainda deverá aprender a manejá-lo bem.

- Não estou entendendo, não estou podendo ajudar ninguém por aqui. Não sei nem como ir embora.

- Tudo tem seu tempo, você sabe disso. Os fatos que são apressados não têm tempo para conclusão. Há o tempo para observar, sentir, aprender, para executar e para ensinar. Os canais estão abertos à você neste momento. Os canais só se abrem para cada ser humano de sete em sete anos, e às vezes existem intervalos por causa de faltas graves cometidas onde eles podem nunca mais se abrir. Por um certo tempo, nada poderá lhe atingir, mas depois, lhe será cobrado o seu amor e o seu reconhecimento.

- Para que tudo isso?

- Fortalecimento. Um homem sozinho sem autoconfiança nada pode; já o homem humilde muda a sua afetividade e vence um exército com estratégias certas para cada batalha.

- Não entendo!

- Entende, sim! Você precisa acreditar.

- Tudo isso deve ter um motivo, uma intenção, ou um objetivo.

- A razão de ser de cada coisa só você pode saber, já lhe disse. O meu objetivo pode ser o mesmo que o seu, só que vamos dar nomes diferentes. Não se preocupe com isso agora. Cada coisa a seu tempo.

- Quem é você? Um Mestre ?!

- Não sou Mestre. Não sou seu modelo e guia. Sou aquele que lhe acompanha nesta vida de hoje, neste momento.

- Meu anjo da guarda?

- Os nomes não importam. Sou o que quiser que seja. -, E eu pensei. É verdade! chamo de Zambi a quem nem sei o verdadeiro nome.

- Eu já o senti antes era você? Continuei.

- Desde o seu primeiro dia de vida, existe um guardião. Não necessariamente, eu. Mas um ser que o acompanha. Foi assim que você fez em outra vida com outras pessoas. É um grande círculo, a grande volta, a grande mandala.

- Está falando de minha outra encarnação?

- Estou lhe dizendo que sou alguém que vê o que seus olhos não podem ver enquanto abertos. Por isso, vim lhe trazer à consciência, o que sua alma já conhece.

- Você veio me ajudar a sair daqui?

- Lhe amparar. São seus os remos e velas que o guiarão, e terá de levá-los a maior parte do mundo que lhe for permitido.

- Para isso é necessário muita coisa dinheiro, por exemplo.

- O barco é nosso, meu andarilho. Sua alma já recebeu muito pelas vidas passadas, e durante certo tempo, será testada sua forma de relacionar-se com os outros.

- Testada ?!?


· 13º Capítulo ·

- Tudo o que você quis, conseguiu e perdeu; todos os verdadeiros amores que passaram em sua vida, você abandonou; todas as calúnias, humilhações, todas as quedas após seus sucessos… tudo isso e muito mais que você já viveu, foram testes que você não passou. Mas, poderia ter passado, recebendo seus próprios prêmios.

- Então, eu poderia ter conseguido tudo que almejei há muito tempo?

- Se a sua postura tivesse sido outra: sim ! Você teve grandes e constantes oportunidades para isso. Quem não tem tantas oportunidades sabe dar mais valor às que aparecem. Sua alma sabe muito, é verdade. Você tem conhecimentos que nem você sabe de onde vêm. Mas suas atitudes são obstinadas e autoritárias.

- Eu vou reconquistar as coisas e continuar a ter oportunidades?

- Não é isso o que importa agora.

- Sim.. preciso sair daqui... isso importa.

- Sua alma entrou cheia de orgulho nesta vida, envaidecida de tudo o que você tinha sido na anterior. Sua grande conquista agora é valorizar o que já tem e reconquistar sua alma.

- Mas tudo o que busco está se tornando cada vez mais impossível. O amor por essa mulher, essa terra estranha... agora é quase irreal. Minha vida está repleta de pontos fracos e isso é angustiante para mim.

- Não deixe, em primeiro lugar, os seus canais psíquicos criarem um vácuo de tempo de abertura, como já lhe expliquei. O único jeito disso não acontecer, é a cada coisa, por mais banal que possa lhe parecer, que você receber nesta vida, retire um pedaço, mínimo que seja, e ofereça uma oportunidade a alguém. Segundo, escolha o seu caminho, e, quando alguém lhe oferecer um obstáculo como ajuda não devolva a ele a mesma resposta. Não perca seu tempo dando importância nesse sentido, à crueldade da inveja ou à sapiência da maldade. E, terceiro, saiba analisar até onde você pode interferir nos fatos. Às vezes, não é permitido. Você não pode impedir que uma pessoa passe pelo o que ela tem que passar por si mesma. Com isso, você cria riscos para o seu destino, cria vácuos na sincronicidade dos fatos e se distancia cada vez mais da verdade.

- Quer dizer que é certo deixar as pessoas sofrerem?

- Esta guerra não é sua. Não impeça ninguém de viver o que tiver que viver. Não deixe ninguém sofrer quando a batalha for sua.

- Então a sincronicidade dos fatos é sem sentido. Por quê estaria aqui ?!

- Isso você terá que descobrir sozinho.

- Existe alguém que possa me ajudar?

- O vento um dia, irá cobrar todos os seus juramentos, propósitos, bem como lhe trazer de volta as respostas esperadas. Pode levar séculos, mas o tempo não esquece suas promessas.

- Mas não posso viver pensando em séculos....

- Um círculo, visto de fora, é mais simples e menos sofrido do que parece.

- É esta minha missão ? Se eu souber reconhecer o que está diante de meus olhos, aquilo que me é oculto será revelado ?

- Há certas coisas que são imperativas. Há certas coisas que têm de ser vividas. Há certas coisas que nunca serão reveladas. Desvende primeiro, o que é verdade e o que é mentira.

- Mas, e os meus ideais ? Vou ter que desistir de tudo para cumprir minha suposta missão?!

- Desistir?! A voz pareceu exaltar-se. Nem na "suposta" morte se desiste de alguma coisa. Não se pára no meio do caminho, principalmente quando é o desejo do coração que impulsiona para frente. Não se gasta esforço em vão numa busca.

- Não sei o que fazer...

- Você terá novamente a oportunidade de cumprir sua missão. Isso é o mais importante. Às vezes, as pessoas pensam que não chegaram aonde queriam, contudo, elas foram além do previsto, e presenciaram coisas que os olhos não viram, ouviram coisas que os ouvidos não ouviram. Seu campo está aberto. Volte os seus olhos para o presente e aproveite o tempo.

- E qual é o meu tempo?

- O suficiente. Você ainda irá oscilar muito de comportamento. Aprenda a não destruir os seus esforços. Nem os seus, nem os dos outros. Romper bruscamente com as coisas, gera um vácuo na sincronicidade do tempo. O resto, é conseqüência.


· 14º Capítulo ·

- Então estou nesse vácuo.

- O seu hoje, é conseqüência. Cada coisa tem a sua proporção, assim como o espaço que você ocupa na Terra. A sua intuição não é vã, é um instrumento do canal que lhe transmite. Aprenda a ouvir. O vento é o meu barco. É através, dele que eu venho e você poderá ir sempre que precisar de mim.

Isso explicava muitas coisas. Sempre um grande sopro à cada instante importante de minha vida.

Aos poucos, a luz foi enfraquecendo, o cheiro e a brisa do mar foram passando, e, em meio a tanta dor daquela terra havia um buraco de harmonia e amor que me fez encontrar a paz. Ainda apressado resolvi me arriscar e perguntar como iria embora dali e quando. E, ele me respondeu que iria demorar muito tempo para que eu pudesse voltar para casa definitivamente, porque o mundo era muito grande, o tempo infinito, e eu teria que correr por ele. Porém, o barco dos deuses esperava que eu conseguisse os remos e as velas primeiro, para que eu não ficasse à deriva. Afirmou que dali em diante, a minha casa seria aonde eu fosse, não me sendo permitido ter pátrias ou amores. Um errante solitário, para alguns; para outros, um homem e um chão; e, uns poucos iriam me reconhecer como um "andarilho e sua sombra".

Eu estava meio confuso, principalmente com essas últimas palavras, mas estava tranqüilo. Não era bom, admito, ouvir que a nossa escolha nos levaria a bons dias de solidão e que era uma troca estranhamente justa. Ainda não sabia discernir se era tudo uma grande metáfora ou, como realmente estava me parecendo: de que depois de tantos amores e paixões, viveria a partir dali talvez com sorte, um único grande amor que entenderia e iria me acompanhar nesta estrada.

Levantei meio desanimado, meio assustado, e fui direto para a tenda de Zambi.

Já passava do meio-dia, mas não sabia ao certo o horário. No meio do caminho percebi que uma das carroças ainda estava atrelada aos cavalos e se movimentavam lentamente pela estrada. Aos poucos, fui me esgueirando fazendo com que me seguissem afastando-os da aldeia. Pensei: poderia ir até o porto voltar antes mesmo que os soldados acordassem. Deveria existir alguém que pudesse me ajudar.

Os cavalos foram indo, indo, e quando perdi a aldeia de vista, subi na carroça e segui rapidamente. Já era tarde demais para voltar atrás e, calculei bem o tempo de ida e volta. Quando fui chegando perto do porto procurei um lugar seguro e escondido para a carroça. Fui pelos cantos e confirmei o que já havia deduzido: que quando eles estão na aldeia, obviamente o navio está atracado no cais.

O porto estava repleto de gente. Todos falavam alto, bebiam homens e mulheres, velhos e crianças, pareciam vindos de toda parte do mundo. Aquele cais deserto de outro dia nada tinha a ver com este.

Porém minhas roupas não estavam adequadas, teria que estar parecendo um marinheiro ou um soldado para não chamar a atenção. Tinha dinheiro, mas não tinha como usá-lo.

Um pouco mais adiante via-se atracado algumas embarcações menores, que pareciam não sair dali há anos. Talvez de pesca ou não. Um pouco mais à beira do cais, havia um homem estranho assim como eu. Estava perdido e tentando se comunicar. Resolvi chegar mais perto para que pudesse ouvi-lo. Quando me aproximei, quase sem acreditar, ouvi que era a minha língua que ele falava. O seu veleiro estava com escoriações nas velas e no casco e queria apenas ficar por ali para consertá-los, pedindo em vão a permissão ou comunicação do escritório responsável por aquele porto.

Coitado ! -, pensei. Alguns o achavam doido e fugiam dele, e ele repetindo a mesma coisa. Viajava sozinho pelos mares há oito meses e não ficaria ali mais do que três dias. Alguns soldados o observavam atenciosamente à distância e outros tinha a intenção de intimidá-lo para que desistisse. Ele, percebendo, logo voltou a trabalhar no veleiro. Não havia um clima amigável no ar. Mas para mim, ele era a oportunidade de ir embora.

À noite -, pensei, vai ser mais fácil chegar até o veleiro, só que os soldados da aldeia darão por falta da carroça, e só Deus sabe o que eles podem fazer quando descobrirem... além disso viriam atrás de mim e levariam esse estrangeiro junto. Quantas conseqüências por um só ato. Ele não iria ficar por três dias, só me restava voltar.

Voltei.


· 15º Capítulo ·

Deixei a carroça no mesmo lugar, e fui eufórico ver Zambi. Quando entrei na tenda levei um susto. Além das crianças, dos velhos e Zambi, havia também a mulher que chorava na noite anterior. Por um instante, ela quase chamou os soldados para se proteger de mim, como se o mal fosse eu, ou, como se ela ainda tivesse alguma coisa a perder. E quase ao mesmo tempo percebi que ela pensou o mesmo que eu e desfez o rosto apavorado. Abrandou-se, olhou para o velho, que com um gesto a tranqüilizou.

Olhei para Zambi, pois era ela que me interessava e puder perceber que os seus machucados eram maiores e mais sérios do que pareciam à noite. Já tomavam a cor própria dos hematomas e ela estava ainda inerte com o olhar fixo.

Estava um clima estranho e eu, cansado, resolvi sair dali. Foi quando ela estendeu a mão. Me emocionei. Embora não entendendo o seu gesto, apertei-lhe a mão e saí ainda envergonhado. O ar me faltava e estava pesado. Um grande mal estar me embrulhava o estômago com vontade até vomitar.

Existiam diversas formas de analisar psicologicamente todo aquele sentimento que tomava conta de mim, mas, preferi apenas sentir. Olhei para o pôr-do-sol e vi, mais uma vez, que ali nada poderia se resolvido.

Tomei coragem e segui de volta para o porto sem olhar para trás. Estava cansado, as minhas energias se gastavam depressa porque não tinha como repô-las com aquela comida. E a noite caiu.

À noite, pensava, as coisas pequenas parecem enormes. Essa estrada bem poderia ser de fadas ou de bruxas, negando toda a realidade que o dia traz quando nasce.

Estava tendo de novo uma estranha sensação de estar sendo seguido, sempre tive essa sensação quando estava sozinho e a noite. Devia ter perguntado àquela voz, pensei. - Como vim parar aqui? -, falei ao vento.

- Ouviria a resposta ainda que julgasse vir de um demônio?

E de repente quase desmaiei. Já havia conhecido pessoas medrosas, mas admito como eu, nunca! Olhei para trás e vi juro, quer dizer é melhor não jurar, que vi um homem parecido comigo, usando jeans e camiseta e descalço. Olhei-o de cima a baixo e não compreendia. Eu não me movia de medo; quanto a ele não sei.

- Responda! Insistiu ele com voz branda. Era impressionante a sua semelhança comigo. Não conseguia responder. O que era aquele homem do Ocidente perdido como eu naquele fim de mundo? Pensei na voz que me falava ao vento e cheguei até a pensar que ele não era deste mundo. Quase tive um troço qualquer. Ele permanecia parado, me olhando, e imaginei que estivesse com o estrangeiro no veleiro.

- Tá louco?! Quase me mata de susto !

- Eu sou um viajante . E você?

Como não sabia de nada, ele não poderia ser do outro mundo -, pensei. Como veio para aqui, de onde você veio?

- Calma, amigo! Você está apavorado.

- E o que é que você queria, que eu achasse tudo isso normal? O que é que você quer? E ele deu um passo à frente, e eu um atrás.

- Você está com medo?! Ele se aproximava e eu me afastava. A noite já estava alta e com luz negra seu rosto parecia mudar a cada instante. Ele devia pensar o mesmo de mim, mas eu é quem era o medroso. Eu me calei.

- Que bom encontrar alguém como eu por aqui. Continuou, e eu não respondi.

- Qual é o problema? Você não ouviria a voz do demônio?

- Enlouqueceu !?

- Por quê?

- Porque é o demônio, ora!

- Simplesmente?! Amaldiçoaria antes de ouvir?!

- Só disse que não ouviria.

- Mesmo que fosse um conselho?


· 16º Capítulo ·

- Mesmo assim! Eu estava seguro quanto a isso, mas sua intenção de alguma forma era somente me criar dúvidas. Por um instante, me lembrei da voz que havia me dito que precisaria aprender a discernir o que era, verdade, mentira e dúvida.

- Mesmo que fosse a pura verdade?
Me calei novamente.
- Quem foi que te disse que o demônio serve ao mal?

Continuei calado. Que papo estranho de demônio naquele lugar, naquela hora.
- Você veio com o veleiro? Tentei mudar a conversa.

- O demônio maior não é o que você vê nesse lugar ?
- São demônios diferentes...
- Caminhe comigo!
- Para onde você vai?
- Até o porto. E, você?
- Então, vamos! E ele seguiu à minha frente.
- Venha! Ele falou.
- Você é um soldado do navio, perguntei?

- Não! E também não sou nenhum demônio, antes que me pergunte. Não do tipo que você conhece. E sorriu.

Havia algo de familiar naquele homem. E de sinistro também. Por alguns momentos não senti o medo que esperava sentir. Afinal, ele estava na minha frente e eu logo atrás.

- Você acredita no demônio, meu amigo?
- Lá vem você de novo... Por quê esse assunto lhe interessa tanto, hein?!
Mas não obtive resposta...

- Então você não acredita em anjos?
- Claro que sim!
- Mas como pode acreditar nos dois? Para crer neste mundo é preciso negar o outro, não é?
- Se um for negativo e o outro positivo, não necessariamente, crer em um para descrer em outro.
- O negativo, ou o demônio é criação de vocês.
- Vocês, quem ? Me assustei com o distanciamento com o qual ele falou.
- Quero dizer, pelos homens.

Caminhamos em silêncio por um certo tempo, quando ele retomou:

- Quer saber mesmo o que é este mundo, meu amigo?
- E, você sabe, meu amigo?! Ironizei.
- Esse mundo é simplesmente a vontade e a liberdade de ter vontade.

Me calei de novo.

- Que você pode acreditar no que quiser porque você é livre para isso, e precisa acreditar em coisas que o faça dependente de alguma forma. Porém, a verdade ela é absoluta, e por mais que você queira se enganar ela não muda.

- Aonde você quer chegar com tudo isso? Ele não parecia se importar comigo ou querer me ensinar alguma coisa, parecia apenas querer falar.

- Eu só quero conversar. É bom estar de novo entre amigos.
- Eu não sou seu amigo... o conheci agora. E ele sorriu.

Ele parecia ler os meus pensamentos e me conhecer à fundo. Lembrei do que a voz havia me alertado quanto a estabelecer uma ponte entre meus dois mundos, e parei.

- Quem é você? De onde você veio no meio do mato. Estava me seguindo, qual o seu nome, o que é que você quer ou o quê? Ele continuava a andar como se eu não tivesse parado. Que terra maluca é essa? Pensei.

- Sabe, meu amigo... não se tem o direito de mudar ninguém. Cada um é como quer ser. Eis aí a sua liberdade. O homem reflete um conjunto de imagens que traduzem quem ele realmente é. O seu princípio. É preciso mudar a vontade desse princípio desse primeiro homem.

Resolvi não responder mais.

- Esse primeiro homem é a natureza humana, o que ele traz sem interferência do mundo exterior, sem memórias ou referências más. Dessa forma, é preciso mudar a natureza humana e não o comportamento. Sendo assim, ele cuidara para que seus caminhos não se transformasse em abismos ou emboscadas para os outros.

- Isso é ilusão. A compreensão completa do eu interior.


· 17º Capítulo ·

- É ilusão você estar aqui presenciando a tudo isso? A própria dúvida cria a mais e, o homem enquanto procura a resposta, acaba não fazendo nada. Contudo, quando o homem obtém uma resposta ele cria a imagem da certeza e o que acontece quando o espelho reflete o contrário?!

- Sei lá... Já não estava entendendo nada mesmo.
- Acreditamos na mentira que os outros afirmam e nos contam.

- Acho que não estou pronto para entender o que você está dizendo. Estou entendendo suas palavras mas não aonde você quer chegar.

- A teoria é o primeiro passo, mas é preciso, agir e tentar mudar as coisas. As reflexões hoje em dia têm que ser reais e eficientes. As pessoas estão morrendo, estão se matando e não têm mais como se defender.

Caminhamos por um certo tempo calados. Quando já podíamos ver as luzes do porto, ele perguntou:

- Se tivesse que viver da mesma forma novamente, viveria?
- Talvez !

- Então o seu espelho está refletindo o contrário? Se tivesse certo não precisaria mudar nada e a viveria novamente.

- Essa é uma perfeição que ninguém alcança.
- Será que não ?!
- Os homens precisam colocar a culpa sempre em alguma coisa para seu comodismo, indiferença e medo. Eu assumo que talvez nessa vida não consiga atingir essa perfeição.

- Geralmente a culpa recai ou em Deus ou no Demônio. El pára por alguns instantes. Acho que vou descansar um pouco por aqui, meu amigo. tenho andado muito nos últimos tempos e não estou tão acostumado -, estou um pouco velho demais para isso.... e, ele encostou-se em uma pedra.

- Eu fico com você.
- Não ! Siga o seu caminho.
- Mas não têm mais ninguém por aqui com quem eu possa conversar. Não tenho tanta pressa assim.
- Às vezes, levo muito tempo descansando, amigo... nos encontraremos no porto, com certeza.
- Mas precisamos dar um jeito de sair daqui, insisti. Duas cabeças pensam melhor que...
- Nem sempre, afirmou sorrindo.

- Você conhece alguém aqui que fale a língua deles? -, Já devíamos estar caminhando há duas horas e ele parecendo bem cansado, recostou na pedra e pareceu adormecer. Eu não sabia se descansava também ou se seguia o meu caminho. Embora hesitante, resolvi ir em frente, ele não poderia passar por mim sem que eu o visse.

O certo é que não o tinha visto chegar, pensei. Mas não cairia no mesmo erro de não observar bem as estradas. Segui em frente olhando para trás à cada segundo. Talvez ele fosse assaltado, os soldados o prenderiam e não veria mais àquele que poderia me salvar, quem sabe. Entretanto a uns quinhentos metros depois, me virei e que espanto: - Aonde ele estava? Pensei.

- Hei, você! gritei. - Aonde se meteu ? E resolvi parar de berrar antes que algum soldado me ouvisse também. Talvez estivesse atrás de alguma moita e voltei. E quanto mais me aproximava mais meu coração palpitava então, fiquei novamente hesitante. Um estranho pressentimento, um estranho medo naquela noite escura me apertava o peito. Cheguei bem perto da pedra e nem sinal daquele "meu amigo". Minhas pernas bambearam. - O que estava acontecendo de novo? Quem era ele? Nem parecia que antes ele estivera por ali. Virei as costas, correndo a caminho do porto.

Ofegante desesperado, cheguei em uma das esquinas do porto e me escondi num canto para descansar do susto. Uma fome bateu no estômago mas precisava esquecê-la . Tremia e um sonolência me veio próprio da calmaria após um nervosismo brutal. Após cinco minutos que me pareceram mais que trinta, levantei ainda zonzo não querendo acreditar no que pudesse ter acontecido, tentando esquecer essa possibilidade, me deparei com algo que fosse tão aterrorizador e deprimente quanto aquilo que imaginei estar acontecendo na aldeia naquele momento.

Quem sabe, por sorte, ou por um pouco que ainda restasse de compaixão na alma daqueles soldados, eles, por, poupassem Zambi. Contudo, aqui no porto todo iluminado, bêbados, soldados, prostitutas e cães vadios, faziam um comércio diferente: de meninas escravas.

Ao centro, o que talvez fosse a praça improvisada, todos rodeavam um tablado um pouco mais alto do que meio metro, avaliando suas presas e compras. Meninas, alguma ainda com sete ou oito anos, amarradas por cordas nos pés umas às outras, somente de calcinhas à exposição.

Procurei me aproximar tentando achar o veleiro e seu navegador, ainda com uma certa esperança de reconhecer o viajante como outro estrangeiro a bordo. Cheguei bem perto um pouco mais à distância do leilão, e observei: ele estava ao mastro no alto, olhando quieto e pasmo toda aquela cena. Os soldados e habitantes pareciam respeitá-lo ou não se importar com ele, talvez pelo rádio que tivesse a bordo… Alguém sabia de seu paradeiro. A sua expressão era como a minha: sem definição em palavras. Ele olhou para o lado e me viu. Acenei. Não era o "meu" viajante, pensei. Este espantado quase que despenca do mastro chamando um pouco atenção de alguns. Fiz sinal para que não se movesse e nem fizesse barulho.


· 18º Capítulo ·

Não sei porque aquele cozinheiro levou meu relógio, pensei, à noite era difícil calcular as horas pela lua. Observei: meninas que permitiam libertinagem na inocência de ganhar um doce, uma moeda que mal sabiam que tinha perdido o valor, algumas pelo prazer de conhecer um refrigerante do primeiro mundo. Crianças compradas que iam direto, talvez para aquilo que parecia um bordel ou uma pensão. Uma delas me chamou a atenção pela resistência, me lembrou Zambi e vi que cada um nasce mesmo com uma força de vontade diferente do outro. Quis aconselhá-la a não resistir, pois queimariam-na viva se preciso fosse, por puro prazer étnico. Ela saiu com o seu comprador, ela com oito anos, talvez , ele, com mais ou menos cinqüenta anos rumo ao bordel. Uma hora depois, ele a colocou na rua sob a proteção de uma das prostitutas para ser repassada e recuperar o investimento.

Cada uma das crianças algumas aparentemente sadias, ou no máximo aparentando uma certa fraqueza, entrava e saía daquele bordel com uma facilidade e naturalidade de quem entra apenas para ir ao cinema. Algumas até três ou quatro vezes por noite. Crianças! Meninas antes da adolescência. As que já eram conhecidas no meio deles ficavam relegadas a segundo plano e, portanto, com direito a menores regalias.

Com o tempo aquelas que deveriam estar disputando balas e bonecas, disputavam homens e suas benevolências por muitas vezes até brigando por eles. Isso não é ficção. Isso faz parte da história mundial. Chegavam mansas e amedrontadas, e dois ou três dias depois, já aceitavam carícias e intimidades em troca de balas e proteção, cama quente, ou um prato de comida de gente.

Os soldados não tinham respeito por nada. Passavam a mão, abusavam delas, riam entre eles, colocavam-nas no colo, mordiam, e, quando o dia amanhecia, elas simplesmente brincavam à beira do mar rindo-se das ondas que iam e vinham. Suas pedrinhas eram tesouros guardados, e ainda sonhavam com piratas que salvavam princesas das garras do mal. Não devia ser o contrário, pensei? Não para elas. Era o espelho refletindo o contrário que o "meu amigo" na estrada havia me falado. Com certeza, elas não sabiam o que era o mal. Não conheciam o mundo e bastasse que o soldado não batesse nelas, para que fosse considerado "homem bom".

Nunca haviam tido nada que pudessem comparar. Logo seriam levadas e vendidas a outros povos, a outros homens com outros costumes, outros cheiros, outros gestos, e depois outros, até que um dia acabassem como as velhas prostitutas do cais, vendendo, às vezes àquelas que talvez fossem suas próprias filhas.

Fiz um leve sinal para o estrangeiro avisando que iria tentar me aproximar e fui tentando. Porém, quando estava quase chegando, ele me fez um gesto para que voltasse. Alguns soldados se aproximaram e o levaram para a taberna. Me afastei um pouco, corri e pulei para o veleiro.

- Meu Deus, que maravilha, pensei. Não estava acreditando... enfim, a minha chance de voltar ao lar. Agora era só esperar ele voltar e pronto. Adeus meninas, adeus minha querida Zambi, mas sei que irei ser mais útil longe daqui, de alguma forma denunciando tudo isso. Contudo, minha alegria findou rapidamente. Era a inspeção de partida! Nenhum barco estrangeiro saía daquele cais sem ser inspecionado.

Lá estava eu no ponto de partida, só que não queria pensar nisso naquele momento, estava num mundo de verdade. Fogão, tecnologia, chuveiro, cama, enlatados... levei quase seis meses para chegar a uma única conclusão: "Eu era feliz e não sabia". Clichê, eu sei. Mas a vida é um clichê constante.

Porém tudo aquilo que busquei sempre esteve ao meu alcance e eu não me dei conta. Preferia, admito, estar vivenciando tudo isto pela televisão, como milhares de pessoas neste momento. O meu comodismo de sempre a minha indignação observadora, porém, distante. Deitei naquele estranho mundo meu e adormeci numa cama.

Acordei sobressaltado com o estranho e três soldados me observando, gritando numa língua ainda mais estranha. Pareciam coexistir em vários idiomas naquele lugar ao mesmo tempo. Dei um pulo e me agarraram antes que eu pudesse colocar os pés no chão me carregando pelos braços.

- Não pude fazer nada - retrucou o marujo.
Eu berrava pedindo que ele não me esquecesse ali, por caridade, que mandasse alguém me buscar, falasse ao consulado, fizesse alguma coisa.

- Não falo a língua deles, desculpava-se o marujo enquanto me seguia aflito.
No porto - fizeram sinal para que ele partisse imediatamente. Ele hesitou alguns minutos mas percebendo a gravidade da situação começou a arrumar o veleiro para zarpar. Ele partiu e fui jogado numa cela fria. Hoje em dia me lembro bem que repetia incessantemente: - Que loucura! Que loucura!

- Agora estou morto, pensei. Olhava pelas frestas das grades e ainda continuava o ritual das meninas escravas. De manhã, à tarde, à noite. Quando terminavam a ronda e a festa, eles jogavam uma comida qualquer para mim com um copo de água . Três dias se seguiram, e eu já fedia, minha barba me coçava e a lata com as fezes atraía bichos estranhos próprios daquela terra. Ninguém era preso lá há anos, por quê eu?! No quarto dia, os três soldados vieram gritando a língua deles e me empurrando contra a parede, e só aí lembraram de me revistar.


· 19º Capítulo ·

Pegaram todo o meu dinheiro, que no desespero nem lembrei de esconder. também para quê, não iria usá-lo mesmo. Talvez tenham ficado contentes por eu não Ter reagido e então me levaram para jogar fora as fezes e lavar toda a cadeia.

Fraco como estava, levei o dia inteiro sob a vigilância de um deles, como se eu agüentasse reagir. Saí. Olhei para o mar e pensei que o veleiro jamais voltaria. Olhei para o porto e só vi alguns bêbados e velhas prostitutas.

Zambi, pensei -, ela cuidaria de mim. E tomei a estrada de terra lentamente, feliz por estar voltando ao "meu" lar. Eu sei que não fui o que ela esperou que fosse, não a amparei quando ela mais precisou, não a defendi com medo para defender a minha própria vida mas lá estava eu, manco e quase cego pela luz do sol em busca do amparo seguro de quem havia demonstrado o seu amor e carinho por mim.

A gente sempre volta, pensei. Mais vale a certeza de um amor, do que a loucura de uma paixão. O verdadeiro sábio não encontra sentidos na paixão, não vê validade alguma naquilo que é momentâneo.

Caminhei mais do que o dobro do tempo que levei quando estava bem indo para o porto. Queria encontrar o viajante mas ele não apareceu. Quando cheguei, fui direto para a tenda de Zambi que arregalou seus olhos azuis e sorriu de modo desconcertado, talvez não pensasse em me ver novamente ou não estivesse me reconhecendo. É desta vez, desmaiei.

Devo ter acordado quase vinte horas depois, pois cheguei à noite, acordei e era noite, então dormi outra vez e acordei de manhã. Assim que consegui me localizar no tempo e espaço, passei a mão sobre o meu corpo que estava nú, o meu rosto sem barba e limpo. Estava muito fraco mas parecia um ser humano novamente. Olhei à minha volta tentei levantar a mão e não consegui. Algum tempo depois, Zambi chegou com uma sopa ou algo parecido.

Meu Deus! Pensei. Tão longe de casa e me sinto como se estivesse no colo de minha mãe. O que Deus poderia ter inventado melhor do que as mães?

Não conseguia me mexer, mas Zambi tinha uma paciência e ternura que eram incompreensíveis, ou próprio de quem ama. Eu não tinha certeza quanto a ela, porém, eu estava cada vez mais apaixonado e envolvido por tudo que a cercava. Seus olhos eram um alívio eficaz para os meus ferimentos, muito embora algumas vezes, ardiam insuportavelmente e eu tinha que gritar de dor. Meu estômago não tinha mais controle e eu evacuava e urinava sem parar, às vezes, sem que eu percebesse.

Os dias foram se passando, e Zambi à minha cabeceira pouco me deixava só. Ora rezando, orando, me alimentando, ou me fazendo engolir um chá estranho, ora talvez recitando poemas em sua estranha língua. Não entendia e preferia fantasiar. Eu queria lhe entender, me comunicar, conversar com alguém: há meses que eu não falava, nem discutia sobre nada e ninguém respondia uma só frase minha. Essa era uma estranha forma de tortura para mim.

Zambi era carinhosa, mas a gente sempre quer mais. Ela parecia se contentar com uma leitura quase diária de minhas mãos, às vezes me explicando alguma coisa - como uma boa cigana. Um dia acordei e lá estava ela lendo minhas mãos como se fora seu livro preferido. Eu até tinha um certo interesse, uma curiosidade peculiar dos seres humanos, em tentar entendê-la. Mas, me desinteressava à cada sensação de angústia que sentia ao fazê-lo.

E o meu passatempo diário passou a ser fantasia. Os dias se passavam, se passavam, foi então que comecei a me levantar, a sentar, a flexionar as pernas, e aos poucos já andava. Nesta noite, Zambi veio me cobrir e eu a segurei pelos braços. A sua primeira reação foi afastar-se rapidamente. Arisca, fui tentando conquistá-la trazendo-a para perto, tão perto para que pudesse beijá-la.

Não queria lhe fazer mal ou nada que ela não quisesse. Ela talvez não soubesse o que era o verdadeiro carinho e fui lhe ensinando aos poucos, devagarinho. Todos já dormiam e consegui aconchegá-la ao meu lado embora ainda estivesse arredia. Teria que ter calma porque Zambi não conhecia o amor, conhecia o estupro. À cada dia a mais, que passava ficávamos mais e mais próximos, andávamos abraçados, de mãos dadas, atraindo os olhares curiosos dos mais velhos e das crianças que riam sem motivo e tinham um ar de felicidade que nunca havia visto antes por ali. Caminhava pouco, porque meus pés ainda não agüentavam, talvez pela friagem da cela, das bolhas ainda sensíveis, ou sei lá. Só sei que depois daqueles tempos meus pés nunca mais foram os mesmos.

Certa manhã, levantei digamos, "inspirado" e resolvi reunir todas as crianças e ensiná-la a cantar. Haviam algumas palavras que viviam repetindo quando os soldados se aproximavam, e justamente à esta palavra, somei uma melodia harmoniosa e vibrante com repetições de ritmos, e pus-me a ensinar. A voz do coração com certeza é mais forte que a da dor, e eles a transformaram em uma marcha com seqüências repetitivas como uma marcha de paz, pisando firme no chão na cabeça do compasso. Era instintivo e aprendiam rápido com uma doce sede de vingança natural, não animalesca. Só bem mais tarde, entendi que era um canto de pureza, não de revolta.


· 20º Capítulo ·

Não era nenhuma força do mal, pensava enquanto assistia a tudo aquilo, era apenas um ritual de magia da sobrevivência. Crianças com almas guerreiras. Aos poucos fui lhes ensinando a brincar de roda, a apertarem uns as mãos dos outros, a defender e amar às meninas e, não a maltratá-las como reflexo do que viam.

Não foi apenas um, nem dez ou trinta dias de danças e cantos que pareciam aflorar uma estranha vontade de luta na aldeia, tão forte dentro de mim que repassei a eles mas com receio das conseqüências. Poderia armá-los para que fugíssemos ou até mesmo roubar aqueles porcos e galinhas que esperavam tranqüilos a volta dos soldados, e isso começava a me aterrorizar. Não poderia deixar Zambi, nem os velhos nem as crianças sucumbirem a tudo aquilo novamente.

"Minha Zambi", pensei em voz alta e ela espantada me olhou. Havia um marujo em terra , no porto, pensei, como não havia pensado nele antes? Eufórico abraçava e beijava Zambi que me sorria estranhamente em retorno. Estávamos na tenda e resolvi sair . Ela puxou-me pelo braço e sentamos nos sacos que eram as camas. Não vou dizer que esqueci os horrores daquelas noites, mas tentei acreditar na força daquele momento e vivê-lo sem grandes explicações. Por alguns instantes, Zambi ficou quieta como se eu não estivesse ali, não permitindo por completo as minhas carícias.

Um gesto mais brusco meu e ela se contorcia toda. Procurei então, ser o mais suave possível, o mais terno, e ainda assim, por várias vezes, ela rejeitou a penetração. Dessa maneira, nos amamos.

Dali por diante ela viveria num mundo só dela, sabe-se lá por quantos anos, para tentar se adaptar e se resignar aos fatos, sem que eu pudesse ajudá-la, apenas lhe amparar. Talvez eu também representasse um mal também a ela inconscientemente, e de uma forma involuntária. Existia a vontade de me amar, assim como a sua necessidade da distância e do desapego também. Ambiguamente, estava tudo facilmente lógico, mas interiormente uma bomba implodira e, durante um bom tempo, as conseqüências iriam reinar a primeiro plano em sua vida, deixando emoções de repugnância e nojo tomar à frente. Eu também não sabia se poderia suportar: A mulher que eu amava veria em mim o horror de sua dor e seu objeto de desprezo, e onde muitos homens já haviam tocado. Um dia você está em casa, entra um qualquer e tira tudo o que você tem.

Rouba sua vida, seu corpo, entra em você como quem entra num quintal, num bar, tira tudo e vai embora feliz, rindo de sua desgraça. Você sobreviveria à próxima vez? E depois? A minha lógica se confundia às minhas emoções, confesso. Resolvi não pensar mais nos soldados e adormeci com Zambi apertando minhas mãos. Apática observando o alto da tenda.

A aldeia já parecia uma cidade quando resolvi ir até o porto. Avisei para Zambi através de uma língua própria meio minha, meio dela. Avisei que se alguém aparecesse que ela se escondesse e corresse para o porto. Contudo, ela não permitiu que eu partisse ou saísse de seu lado nos dois dias seguintes. Estávamos felizes, eu entendia, não se arrisca a sorte quando ela parece estar ao nosso lado. Por muitas vezes, busquei a voz de meu guardião ou do viajante, eram queridos companheiros que falavam a minha língua, que ironia. Não sonhava mais e minhas intuições me faltavam, parecia estar muito distante desta outra dimensão por algum motivo.


· 21º Capítulo ·

Vivia um enorme vácuo que justamente não poderia estar vivendo, mas era inevitável e alheio à minha vontade, alguns em desespero apegam-se aos espíritos e seus rituais para se segurar; eu, de modo estranho me revolto com eles e procuro esquecê-los. Porém, pressenti que deveria ir até a cidade do porto em busca de ajuda pois a espera não me levaria a nenhum lugar. Parti, sem que Zambi me visse e tentasse me impedir, com a certeza de que ela entenderia e tomaria cuidado.

Caminhei pela estrada durante quase toda a manhã, mas não precisava mais me esconder, e isso de certa forma me aliviava porque não tinha expectativas, não haveriam decepções. Só sofre decepções quem cria imagens ou têm opiniões pré formadas sobre alguma coisa ou alguém; quem não faz um julgamento antecipado não se surpreende. Achava-me medíocre por ter levado trinta anos para descobrir que a esperança nunca existiu, o que existe é a ação. Sempre tive idéias comodistas e medos para seguir adiante, por isso criei a esperança.

Esperava que acontecesse isso, acontecesse aquilo e nunca me tornava responsável por nada a acontecer. O mundo e as outras pessoas eram responsáveis por minha vida ser sempre igual. Afinal também não era responsável por mim mesmo.

- Se você não fizer, não existirá, falei comigo mesmo.

- A sua intenção somente pouco vale. Continuei.

Você acabará por viver uma vida em branco, acreditando que o destino cumpriu a sua parte, e quando acordar será tarde. Só que eu não cumpri a minha parte, não é essa a verdade? -, continuei divagando ao vento.

Você está vendo que a moral, a vida, os homens, tudo, é apenas um rascunho de que nada vale até você dar um sentido para tudo isso. Uma realização. Mas será que eu posso inventar as minhas próprias leis? Desde que a use para alguma coisa que construa e não prejudique a ninguém, porquê não?

Se sou livre para fazer o que quiser, todo mundo também é. Se todo mundo pensar assim. Se todo mundo pensasse assim, o único objetivo seria um ajudar o outro, ninguém se calando contra a dor e interferindo nas injustiças. E continuei divagando pelo caminho.

Cheguei ao porto e para o meu desespero vi que os soldados estavam começando a desembarcar e se preparavam para avançar até a aldeia. Comecei a correr, a procurar o tal marujo através do meu dialeto próprio. Devia estar bêbado em algum canto qualquer, pensei. Resolvi voltar correndo embora soubesse que o meu tempo seria inferior ao das carroças.

Mais tarde, já caía pelo chão, ofegante e desesperado.

- Zambi - pensava em desespero. De novo, não ?!

As vozes haviam voltado, murmuravam gritavam dentro de mim, mas não entendia e nem queria parar para decifrar o que diziam. O medo já quase não existia mais em meu coração e só tinha pressa de chegar. Corria. Acho até que cheguei a ver vultos pela estrada quando a noite começava a cair, mas não consegui identificar ninguém. Uma estranha sensação me vinha, nunca tinha acontecido isso comigo, a tal ponto de quase ver tantos espíritos de uma só vez. Você já fez um esforço além do que o seu organismo suporta? Pois bem! Chega a um certo instante que você começa a amolecer, a fragilizar-se e mesmo querendo acompanhar os seus sentidos, não resiste. Era o cansaço, um vácuo abrindo os canais mais sensitivo.

Já não conseguia mais correr, a raciocinar, apenas chorava compulsivamente. Pensava no que estava acontecendo comigo e nem conseguia mais andar depressa.

Não sei quanto tempo depois eu cheguei à aldeia, e sem saber se me escondia ou não, optei por não me esconder muito longe.


· 22º Capítulo ·

Zambi não estava com os homens em torno da fogueira e dei a volta percebendo que eles não estavam tão animados quanto das outras vezes. Comecei a me preocupar. Havia sangue, muito sangue em volta do fogo. Corri para "nossa" tenda e acordei de todas as minhas fantasias. Não haveriam mais torturas ou danças de guerra, nem silêncios nem estradas, Zambi estava no chão, cercada pelo velho, as duas crianças e aquela mulher que chorou uma vez por ela.

- O quê aconteceu? Eu perguntava incessantemente. Meu Deus, o que deixaram fazer com ela? A loucura dos homens não tinha mais limites. Quando me aproximei, me debruçando sobre seu corpo, vi que havia um punhal à sua distância. Me agachei a seu lado e ela, ainda viva, em um leve suspiro apertou minha mão com a sua ensangüentada. Eu chorava, implorava na língua dos homens que ela não me deixasse, que nunca mais a deixaria sozinha, nunca mais. Que eu iria protegê-la por todas as nossas vidas dali em diante, eu jurava, e jurava.

Zambi chorava, eu chorava lhe pedindo perdão, lhe pedindo para que não fosse ao mundo onde não poderia nunca mais tocá-la. Todos nós chorávamos. Foi quando num gesto de amor eu compreendi que aquela era a sua mãe, o ser mais importante para ela, sua morte, sua salvação e dor, e ambas preferiram que Zambi não vivesse mais a ter que viver aquela vida. Sentir na pele aquele horror de tempos em tempos.

Por vários anos eu tentei imaginar a cena de seu suicídio, ou a mãe matando a filha como salvação, talvez como uma autopunição. Pensei que podia Ter alterado os fatos. Ou, quem sabe, uma curiosidade mórbida que avassala o homem, que faz com que ele pare para ver a desgraças alheias. Não sei. Eu não era responsável por aquilo tudo mas me sentia assim e viveria assim por toda a minha vida. Tinha sido responsável por uma certa omissão através da história e por mais um peão inútil, manipulado pelo tabuleiro do destino.

Quem sabe, pensava, este não seria o único pecado real da humanidade? Fazer com que as coisas se repitam através dos séculos. Meus elos haviam sido quebrados. Aquela estranha cruz ao pé da árvore era o túmulo de Zambi. O sonho se cumpria.

Sonhos indecifráveis e perdidos. No seu devido tempo faria algum sentido? Dali adiante, o meu lugar sagrado, a minha terra santa, o meu refúgio em sonhos e em pesadelos, e, um dia, o meu desterro. Ali, naquele solo, estava parte de minha alma e de meu corpo. Naquele estranho mundo com aquela estranha mulher que havia conversado, findava um ciclo de decisões e emoções. Um andarilho não tem esperanças tem atitudes. E quanto a estas, mais hesitaria em tomá-las.

Despedi-me dos velhos, das crianças e de algumas mulheres assim que os soldados foram embora. Quanto a mãe de Zambi, sentia um misto de ódio por seu ato e compaixão pela sua dor, um dia entenderia a sua forma de julgamento e aí saberia aceitar o seu ato. Ou, talvez, jamais aceitaria.

Há o tempo de espera, sem dúvida, em que devemos aproveitar para nos encontrar-mos com nossas idéias; mas há essencialmente o tempo de agir, ainda que erremos, devemos tentar acertar sempre.

Parti sem olhar para trás.


· 23º Capítulo ·

Estava perdido nos dias que passavam, entretido no horizonte do mar à beira do cais, como uma gaivota que descansa à beira da praia, quando um velho marujo, aquele bêbado perdido se aproximou e sentou-se ao meu lado, enquanto eu rabiscava um resto de papel.

- Você novamente aqui, meu amigo, no mesmo lugar que eu o encontrei? Havia algo de familiar naquele jeito de falar dele, ou quem sabe eu estaria fraco e sensível demais.

- Eu lhe procurei tanto, marujo. Aonde estava?

- Fico sempre por aí. E, você? Há dias que o vejo sentado aqui vivendo da caridade das velhas. O que espera?

- Alguém, um barco que me leve de volta para casa.

- Você quer mesmo ir?

- Mais do que tudo, afirmei!

- Você tem dinheiro?

- Não mas...

- Vai ser difícil então.

- Eu espero.

- Nada é impossível, continuou ele que tentava conversar e eu só queria estar sozinho com minha melancolia. Parece que sempre que estamos tristes procuramos várias formas de alimentar nossa tristeza.

- Mas porquê a escolha de voltar? -, continuou ele.

- Meu caminho não é aqui.

- E por quê não o segue a partir daqui?

- Não entendi.

- Ao invés de voltar, siga adiante, pegue a estrada e vá em frente até chegar a algum lugar.

- Já sofri demais com os fatos deste seu mundo. Vou esperar qualquer barco que possa ir me levando para casa. De barco em barco eu acabo chegando.

- Voltar para quê?

- Retomar minha vida, depois de tanto realismo cruel, se assim eu conseguir.

- Prefere renunciar a tudo do que contar a verdade ao mundo?

- Não são verdades, são alucinações.

- Uma criança quando vê algo errado, logo sua primeira atitude não é ir contar para os pais? Pois bem ! continuou ele, conte a quem possa contar a outros, e a outros.

- Por quê tenho sempre a sensação de que as pessoas que encontro sempre tentam me convencer de alguma coisa?


· 24º Capítulo ·

- Estranhos são os ventos meu amigo, não as pessoas. Estranhos são os destinos. Se você souber usar o vento a favor por mais que ele seja forte, agirá bem fazendo com que ele lhe sirva. Nem todos os homens nesta vida têm mais de uma opção, e você tem várias. Não será um bom sinal?

- Veja aonde minha opção me trouxe - Respondi indiferente.

- Você não está preso aqui, está de passagem. Se não souber encontrar-se com as suas provações nesta vida, de que irão lhe valer cem anos vividos em seu lar ?

- Você é do tipo que gosta de filosofar, não é? É o segundo que encontro por aqui. -, E ele sorriu.

- Eu sou do tipo que sabe diferenciar uma nuvem à distância, de uma vela de uma embarcação.

- Remos e velas, balbuciei. Já ouvi essa história. Isso tudo é muito pouco prático.

- Eu acredito em três coisas nesta vida: primeiro, no hábil equilibrista que estica e se equilibra na própria corda; segundo, no andarilho que sabe abrir as portas certas na escuridão; e terceiro, no mago que tem consciência de que ele próprio é o galho e não a raiz de sua própria árvore.

- Aonde você quer chegar? Não estava muito interessado em suas filosofias quando me dei conta de que as nuvens de que falava, eram velas ao mar. Levantei ainda eufórico, sem me importar mais uma vez com a indiferença do marujo. Era o veleiro do explorador que estava voltando depois de tantos meses.

Passaram-se quase três anos desta história, e tenho sabido através de órgãos oficiais que nada mudou por lá. Somente eu, aquele velho marujo, o viajante, o guardião e o estrangeiro.

Nós tínhamos as nossas certezas.

Resolvi que venderia tudo o que tinha em terra para que pudesse seguir o meu caminho. E segui.

- A propósito, falou o estrangeiro navegador, quando estávamos a caminho de volta, numa linda noite de luar. - Com quem estava conversando quando atraquei?

- Como, com quem eu estava conversando?!

- Você falava sozinho e parecia entretido num diálogo importante, seja lá com quem fosse.

- Você não o viu?!

- Não vi quem?!

- Um marujo de meia idade? - ele me olhou estranhamente.

- Não havia ninguém com você -, ele afirmou com tanta propriedade que depois de ter hesitado, eu sorri.

Já deveria estar acostumado, pensei. Era algo que eu teria que aprender a conviver cada vez mais dali em diante. Seria assim: acreditando em algumas coisas, questionando as que não entendia, e negando outras. Tentando olhar o que não via e esperando a porta do oculto se abrir.

- E o que é que "ele" estava lhe dizendo, então?

O vento soprava forte em noite alta, e eu tinha a certeza de que "ele" me dizia alguma coisa em meu coração.

- E então?! - Insistiu o estrangeiro.

- "Bendito é aquele que sofre pelas mãos dos homens, que por eles será vingado; Bendito é aquele que chora pela mágoa dos homens, que por eles será saciado; Bendito é aquele que ama e não se cala pelos homens, pois aprendeu que a liberdade, é o primeiro mistério sagrado do oculto que só os humildes podem desvendar".

O estrangeiro navegador não deu a mínima importância às minhas palavras e continuou velejando...

E foi então, a partir deste dia, depois de tudo o que havia passado, que comecei a procurar os grandes segredos mágicos dos grandes guardiões através dos tempos, criando pontes reais para que eu pudesse usar meu conhecimento de forma correta.

Começou seis meses depois que cheguei de volta ao "meu" lar que eu tanto quis fugir, uma vez.

Mas isso já é uma outra história.











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