"O Andarilho II • Uma história real" (1999), é a continuação da trajetória do personagem central que abandona a sua vida tradicional e confortável, e sai em busca de respostas às suas questões pessoais, humanas, místicas e sobrenaturais.
Neste volume, o personagem central, viaja de volta para sua terra natal e começa a compreender a vida e todos à sua volta, através de suas
memórias passadas.
O romance traça a trajetória de uma mulher nascida em um Estado brasileiro, mas que poderia ser ou ter estado em todos os lugares do mundo. O objetivo do livro é narrar a sua força de vida, coragem, determinação, resignação diante dos fatos da vida, dores, amores, traições, perda da inocência até o seu dia fatal no auge de sua juventude.
Uma história real
· 1º
Capítulo ·
Eu nasci.
Essa frase eu li em minha adolescência e nunca mais esqueci.
Foi em um livro que nos deram como lição escolar, para leitura adolescente.
Oras. Aos poucos fui descobrindo que, nada de tranqüilo havia naquelas
palavras. Foi nesse dia que conheci a estória de David Copperfield do escritor
Charles Dickens. A partir de então, nunca mais consegui me separar da densidade
dramática desse autor, como se cada obra sua, fosse sendo escrita sobre mim.
Talvez minha presunção tenha também nascido nesse dia.
Aqui estou eu em alto mar, a caminho de minha vida que tanto fugi e agora
parece tão consoladora. Tão confortável ao meu "eu", que me pego
revivendo essas sensações, visualizando memórias de "muito antes de
nascer".
Eu pouco me lembro de minha infância. O que eu me lembro sempre tem uma relação
direta e infinita com minha mãe. Uma figura que era doce e frágil, que deve ter
nascido inocente como todos nós, mas que o mundo e as pessoas à sua volta foram
transformando, dia após dia.
Dizem que o mar é a grande mãe do mundo. A grande água da placenta, o grande
ventre do Universo. Sem Zambi, sem amor e dor, na ausência dos
sentimentos que nos tornam mais humanos e palpáveis, o que mais me distancia e
me une a mim mesmo, se não a associação direta dessas águas à minha infância ?!
O estrangeiro levanta as velas. Troca as dobradiças. Os mesmos hábitos
contínuos e certeiros envolvem sua rotina. Fico tentando entender se estamos
perto ou longe... mas em momentos como os de agora, me pergunto: tão longe ou
tão perto de quê ?!
Mas essa é uma nova história que vou contar agora.
· 2º Capítulo ·
Tudo começou em 1929, quando minha mãe nasceu.
Eram tempos difíceis, tempos de recessão, da grande queda da bolsa de valores.
Outros fatos importantes aconteceram nessa época também, mas sem nenhum
interesse para essa história.
Minha mãe nasceu a mais jovens de dois irmãos.
Desde cedo aprendeu a conviver com o "estranho" e as influências
místicas do Universo, no dia-a-dia de sua vida.
Lembro de ouvir estórias assustadoras e incompreensíveis aos meus ouvidos
infantis, que mais tarde, iriam me acompanhar pela vida inteira. Será que de
fato, existe uma herança espiritual, que passamos de filho para pai e assim
sucessivamente ?
No alto de seu bairro, os arcos alegravam as ruas, os moradores e tudo se
resumia em alegria e ritmo. A força daquela jovem otimista contrastava com a
visão real de sua cidade, bela porém pobre, ainda provinciana. Sua presença era
tão forte, que naturalmente emanava uma empatia e segurança nas pessoas à sua
volta.
Anos mais tarde, fui descobrir com a vida, que se paga um preço caro por ser
"naturalmente" altiva, segura de si e forte de moralidade e caráter.
Muita gente, no decorrer da vida, julgou essa "presença", como
arrogante e presunçosa. Mas o ser humano é estranho por natureza e descobri
também, que é inseguro e medroso.
Cresci ouvindo minha mãe dizendo:
" - Meu filho ! Não seja tão seguro de si, pois as pessoas vão julgá-lo,
afirmando que se sente superior à elas."
E eu respondia:
- Mas, minha mãe... tenho que mudar o meu jeito de ser por causa das pessoas
que verdadeiramente não me conhecem ?!
E ela simplesmente sorria, como se me dissesse: " ...a vida vai lhe
ensinar... a vida ensina a todo mundo... um dia você aprende !"
· 3º Capítulo ·
E acho que estou aprendendo...
Mas minha mãe aprendeu de uma forma muito diferente, o que me levou a crer
nesses anos que de fato todo mundo só aprende vivenciando. Teorias são ótimas
para debates, pesquisas... não para a vida.
E era assim que ela vivia: entre o que existe(ia) de verdadeiro e o que
existe(ia) de dúvida e imaginário.
Ela contava que um de seus irmãos, o mais velho, tinha um "horror"
gratuito pelo próprio pai. Não haviam motivos palpáveis para tanto ódio e a
repugnância, antipatia, desprezo e repulsão do pai. Era mútuo.
Ambos viviam em estado de guerra diário.
A aversão de um pelo outro era tão grande que ao mesmo tempo que se evitavam
sentiam a presença um do outro. As histórias de impressão e sentidos eram
impressionantes, tal o grande nível de sensitividade.
O filho tornou-se boêmio para evitar estar no mesmo ambiente que o pai.
Acordava tarde e quando se aproximava o horário do pai voltar do trabalho, o
filho saía e só retornava pela manhã. Por várias vezes, o pai estava sentado
lendo seu jornal, quando comunicava para esposa:
" - Ele está chegando ! Eu sinto !"
E a esposa, até se acostumar, perguntava:
" - Ele, quem ?"
" - Seu filho !" -, o pai respondia. " - Seu filho !"
E no máximo quinze minutos depois, o filho chegava.
E a esposa e seus dois outros filhos se entristeciam com aquela cena
inexplicável.
O filho, era alegre, descontraído, brincalhão, tocava violão, autodidata,
cantava até "sentir" a presença do pai. Por vezes, estavam todos
almoçando e o filho dizia:
" - Ele está subindo a ladeira... preciso sair."
E de repente, saía de casa e o pai chegava.
O pai era carinhoso com os outros filhos, alegre, amoroso, um homem
trabalhador, dedicado à família, mas que desde o nascimento desse primeiro
filho, tinha se tornado um homem estranho, diferente, de comportamento
indistinto.
Porém, assim viveram na indiferença um do outro, na insensibilidade moral, na
negligência interior, na inconsciência doentia até que uma grande peste atacou
a cidade rapidamente com sua epidemia pouco curável. Era o tifo.
· 4º Capítulo ·
A febre tifóide atacou o filho e tudo mudou naquela casa, naquela cidade,
naquele bairro de arcos enormes e felizes.
A febre alta fazia o filho delirar e no êxtase da alteração de sua consciência
ele murmurava palavras sobre o pai:
" - ...ele está chegando... não quero encontrá-lo... preciso sair
daqui..."
O nível de excitação inexplicável do espírito era tão grande, que as poucas
vezes que o pai foi visitar o filho, ele avisava para a enfermeira:
" - Ele está vindo me visitar... não deixe..."
A mãe em desespero tentava de tudo: médicos, padres, pais-de-santo,
espíritas... e as explicações eram as mais diversas sobre o desvairamento de
ambos. Mas nunca com soluções práticas de vida e conclusões positivas.
Minha mãe, ainda menina, não entendia o motivo de tanto ódio, já que o pai era
amoroso e o irmão um grande companheiro de brincadeiras e cantorias.
Porém, um dia, a mãe, já desesperançada de tudo, estava sentada ao lado da cama
do filho na enfermaria, quando entrou um médico bonito, alto, forte, todo de
branco, visitou todos os pacientes daquela enfermaria e reclinou-se para falar
com ela:
" Não fique triste... o seu filho e seu marido não têm culpa, eles não entendem..."
A mãe ficou olhando para aquele médico, que continuou:
" - A esperança é uma virtude. É uma âncora para a vida. Mas eles foram
inimigos em outra vida, e nessa vida, eles vieram juntos para tentar encontrar
a paz !"
Acabada as palavras, o médico saiu da enfermaria.
A mãe, surpresa com o que acabara de ouvir, saiu correndo atrás do homem que
logo desapareceu. A enfermeira veio e perguntou qual era o problema:
" - Aquele médico que veio visitar os doentes... quero conversar com
ele..."
" - Qual médico ?! " -, perguntou a enfermeira.
" - Aquele que veio agora aqui: jovem, alto, forte, moreno..."
" - Minha senhora ! Não temos nenhum médico aqui com essa descrição...
todos os médicos desse hospital são mais velhos... não temos residentes e
novatos."
A mãe, imobilizada, com sentimento profundo e indizível, aparentando angústia e
alegria, só conseguiu balbuciar: " - ... mas ele esteve aqui..."
A enfermeira, compreendendo o sentimento da mãe, deixou-a sozinha, ignorando as
suas supostas alucinações.
A mãe, ainda tentando encontrar o eixo das palavras que acabara de ouvir,
resolveu ir para casa descansar.
Horas depois, o filho grita pela enfermeira:
" - Ele está vindo me visitar... não deixe... não deixe..."
E desmaia.
· 5º Capítulo ·
E, de fato, era o pai.
Cabisbaixo, após horas perambulando pelas ruas, resolveu, tarde da noite,
visitar o filho.
Sentou-se ao pé da cama e começou a chorar...
" - Meu filho, querido ! Corpo de meu corpo... eu não sei porque o odeio
tanto e desconheço os sentimentos que o fazem não me amar... Minha alegria
começou e terminou no dia em que você nasceu. O que Deus quis fazer comigo e
com você ?! Nos uniu e nos separou..."
O filho ainda desmaiado não apresentava nenhum movimento no corpo ou emoção.
" - A minha vida toda, meu filho, eu o persegui e fugi de sua vida. Tinha
ímpetos de amá-lo e desejo de abraçá-lo, mas nunca consegui. E agora, em seu
leito de dor, estou aqui para dar a minha vida por você..."
O filho acorda e olha para o pai com ternura e diz com voz fina e frágil:
" - Meu pai... me perdoe... querido pai... me perdoe...
Pai e filho, pela primeira vez em 25 anos, se abraçam com amor e carinho. Aos
prantos, apertando o filho, a enfermeira entra e tenta consolar o pai:
" - Senhor ! Senhor ! O seu filho morreu, senhor ! Não pode fazer mais
nada... O senhor não pode abraçá-lo... é contagioso..."
O pai em desespero não deixava o corpo do filho.
O tempo passou.
Aquilo, o tempo, que para uns é um alívio, para outros, é um instrumento de
sofrimento constante.
O remorso, a lembrança, o mordimento, de novo a inquietação da consciência, que
antes era pelo desconhecimento, agora se transformara em inquietação por culpa.
O tempo perdido; o tempo que não volta atrás...
· 6º Capítulo ·
Durante anos ouvi minha mãe dizer que, "ainda bem que no último minuto de
vida, eles se reconciliaram... se não, o tormento teria sido maior."
Será ? Sempre pensei nisso...
Mas o que parecia que seria um prenúncio de infortúnio, não o foi. Tristeza,
sim; pobreza, não.
Se por um lado as coisas começaram "estranhamente" a melhorar
financeiramente, por outro, começaram a ocorrer estranhos e inexplicáveis
fatos.
A mãe de minha mãe começou a ter o que hoje chama-se comumente de
"visão".
Qualquer copo transparente com água era o suficiente para que ela viesse a
predizer o futuro.
Fantasias. Quimeras. O que quer que fosse, todas se concretizavam.
Fosse na água do tanque para lavar a roupa, na água para limpar os pratos...
ela sempre era "avisada" do que viria a seguir e em breve.
A falta da alegria que o "filho" deixou na casa, aos poucos foi sendo
substituída pelo conforto espiritual. Talvez, essa lógica nunca tenha lhes
passado pela cabeça na época. Porém, a "troca" de sentimentos
inverteu a posição espiritual que rondava o ambiente.
Mas o que está escrito para uns com destino certeiro, parece estar e nada
adianta fazer para mudar. Parece simples e talvez conflituoso perceber esses
fatos tão distantes de nossas atitudes ou intervenções, mas a probabilidade de
alteração do curso, para uns, parece impossível e quase inatingível.
Veio a febre amarela. Outra epidemia que avassalou a cidade.
Um dia, ao jantar, a mãe de minha mãe viu em seu copo, uma água escura. Não era
suja. Era simplesmente de cor amarelada. Ela profetizou:
" - Um de nós ficará seriamente doente..." -, e não disse mais nada.
Falou como se não suportasse segurar sua fala ou como se falassem através
dela...
Todos em desespero quiseram saber quem seria. E ela só afirmava com impulso
rápido e comovente, 'que não sabia'.
Os dias foram passando e ninguém adoecia. Será que pela primeira vez ela havia
errado em suas previsões ? Qual sinal teria sido enviado pela água amarelada ?!
Um mês. Dois meses. Três meses e nada. Todos se esqueceram das previsões...
Eis que um certo dia, lavando a roupa no tanque, a mãe de minha mãe gritou:
" - Meu Deus !!!! "
· 7º Capítulo ·
Minha mãe veio correndo em seu socorro, mas não parecia ser nada grave.
Encontrou a mãe encostada no tanque olhando para a água com os olhos
arregalados.
" - O que foi, mãe ?!"
" - Minha filha... maus tempos virão !"
" - Por quê, minha mãe ?!"
" - Porque vou ter que partir... chegou a minha hora... você vai ter que
ser forte e cuidar de seu pai e de seu irmão..."
Me lembro que todas as vezes que minha mãe contava essa história, nunca
conseguia chegar ao fim sem estar se debulhando em lágrimas...
" -... eles irão precisar muito de você..." -, a mãe continuava.
" - Mas a senhora vai ficar doente ? O que vai acontecer ?"
" - ... lembre-se minha filha, que sempre estarei com você, a seu lado...
sempre... você jamais estará só..."
Minha mãe... uma menina de 14 anos, despreparada para a vida, começava a se
desesperar, enquanto presenciava sua mãe, predizer sua própria morte.
Às vezes, fico pensando se alguém precisa passar por isso na vida para se
tornar forte... até onde a necessidade de tanta exposição de sentimentos é
benéfico ou não...
A mãe de minha mãe continuava:
" - Mesmo quando for muito mais velha, lembre-se de minha palavras... você
jamais estará só..."
" - Mas como eu vou cuidar de meu pai, de meu irmão ? Não sei nem cuidar
de mim..."
A mãe correu para dentro da casa e trancou-se no quarto até ao anoitecer.
Minha mãe em desespero só fazia chorar.
Quando o seu pai chegou à noite, encontrou a filha chorando e a esposa no
quarto. Perguntou sobre o ocorrido e foi discutir com a mulher, pois tinha
assustado à menina.
A mãe de minha mãe não disse nada.
Nos dias porvir nunca tocou no assunto.
Eis que um dia acordou com febre. Febre forte. Intensa. Febre amarela. Foi
internada às pressas quarenta e nove dias após a sua profecia.
· 8º Capítulo ·
Todas as economias guardadas, todas as conquistas, foram utilizadas e vendidas
para ajudar no tratamento. Mas eram tempos difíceis. Tempos em que a segunda
guerra mundial já se prenunciava nos jornais e rádios. Tempos de contenção.
Tempos em que a medicina pouco sabia de curas e alívios.
Assim como seu filho, os seus delírios causados pela febre, a faziam pronunciar
previsões mediúnicas... algumas nunca reveladas por minha mãe; outras,
estranhos conselhos para um futuro cotidiano, do tipo " -... guardem
açúcar..." -, coisas que somente depois, no auge da guerra, eles teriam
compreendido, em vão, o que ela quis dizer.
Um certo dia, após três meses de sofrimento, delírios e dores, a mãe de minha
mãe veio a falecer.
Não disse nada. Simplesmente fechou os olhos, em uma tarde de sol na
enfermaria, deitada, plácida e adormeceu para sempre.
Todos se lembraram de suas profecias. Todos foram abalados. Mas como ela
previu: " -... maus tempos virão...". E vieram.
Todos acharam que aquilo seria o momento pior de suas vidas, o caminho mais
tortuoso, a morte, e talvez o fim de um período de dores. Mas de fato, aquele
momento, foi só o começo.
O pai de minha mãe perdeu o emprego. Era muito para seu frágil coração: a perda
do filho, a perda da esposa, a perda de suas poucas conquistas e a guerra.
Saíram da casa ampla e arejada, para uma vida muito mais simples, onde todos
praticamente moravam em um lugar apenas de dois ambientes.
Não haviam mais os arcos de ritmo e alegria; não havia mais a sintonia entre a
vida e o futuro.
A esperança que um dia fôra a âncora de suas vidas, não existia mais.
Sem ter como sustentar os dois filhos ou uma moradia, ele resolveu entregar as
crianças para um colégio interno público, sob a custódia de uma tia, irmã de
sua esposa.
Sem emprego, sem dinheiro, sem perspectiva, foi morar em um albergue público.
Seus dias eram tortuosos, entre a busca de emprego e o horário para voltar para
o albergue.
Minha mãe relembrava com dor o momento da separação entre os dois, os olhos de
tristeza, amargura e ela sem entender como poderia ajudá-lo, já que estava no
seu destino essa confusa tarefa.
Anos depois, com mais maturidade e as feridas cicatrizadas, jurou construir
albergues para os necessitados. Nunca conseguiu.
Os dias de seu pai eram indescritíveis, pois tinha que sair do albergue cedo e
vagar pelas ruas em vão. Seu único objetivo era voltar no horário certo no
final da tarde, para fila da instituição. Por muitas vezes, por causa das
chuvas, não conseguiu voltar a tempo antes do albergue fechar e teve que dormir
na rua.
Minha mãe sabia de tudo isso e à cada dia seu tormento aumentava.
Mas sua essência era outra e não perdia a esperança.
· 9º Capítulo ·
De tudo, de todas as situações, minha mãe soube retirar alegria e vontade para
continuar lutando. Por todos anos, apreciou com total expressão de prazer, a
sua goiabada com queijo, lembranças de seus domingos ao lado de seu pai.
Pobre, já na miséria, visitava a filha todos os domingos no colégio interno e
como sempre, só podia levar esse doce caseiro e barato como presente.
Esses momentos, anos depois, eram tão especiais e apreciados por minha mãe, que
acredito, talvez, lhe trouxessem a lembrança de tempos difíceis, porém felizes.
Embora não julgasse dessa forma, na época.
Mas alí, naquele internato, ela aprendeu muito. Com a vida, com as pessoas,
descobriu a falta que uma mãe faz em nossas vidas.
Suas grandes tristezas nesse período se resumiam na falta de possibilidade de
saída do colégio. Seu pai não podia buscá-la, sua tia tinha outros afazeres,
sua mãe não estava viva, e seu irmão não podia também sair do internato para
homens.
Anos se passaram assim... até que um dia, o seu pai conseguiu emprego na pós-guerra
em uma fábrica de cerveja e descobriu como abrir o seu próprio negócio.
Os tempos começaram a melhorar pela segunda vez em suas vidas...
Retirou, primeiro, o filho do internato para ajudá-lo na cervejaria. Muito
tempo depois, esse filho iria condená-lo por não ter permitido que ele
terminasse seus estudos.
A filha que quase estava se formando e parecia ter um futuro brilhante pela
frente, ele preferiu que terminasse e se formasse.
Ele, sim. A vida, não.
Um certo dia, minha mãe acordou com uma dor na perna, quase perto do tornozelo.
Não deu muita importância. Porém, a dor que parecia uma bobagem, se transformou
em uma ferida pequena. Pouco tempo depois, uma ferida enorme. Logo em seguida,
em uma grande ferida aberta que nunca cicatrizava.
Seu pai, resolveu retirá-la do internato e interná-la no hospital, para que em
breve continuasse seus estudos. Falsas Esperanças.
A ferida tomou vulto maior chegando à exposição óssea. Uma bactéria
desconhecida, estava atingindo o coração, lhe causando grandes danos nas
válvulas.
De uma moça exuberante, passou a uma moça magricela, anêmica, sem brilho, como
que por encanto.
Minha mãe abandonou os estudos e ficou internada por mais de 8 meses em uma
cama de enfermaria.
As posses financeiras permitiam que tivesse uma enfermeira "mais"
atenciosa. Mas os médicos desconheciam o motivo da doença e o que estava
causando a ferida.
Um dia de muita dor e tristeza, minha mãe olhava para a janela da enfermaria e
uma senhora negra, de meia estatura, forte, chegou ao lado de sua cama e falou
ao seu ouvido:
· 10º Capítulo ·
" - Menina... eu vou colocar essas folhas em sua perna que irão curá-la.
Vou colocar todos os dias... sempre que a enfermeira sair, eu venho cuidar de
você..."
Minha mãe estranhou a presença daquela senhora com ervas nas mãos que pareciam
folhas verdes enormes... mas permitiu que fosse colocado em sua ferida.
Durante todos os dias, semanas, a velha senhora vinha visitá-la para saber como
estava a sua ferida e trocar as folhas. E para espanto dos médicos, à cada dia,
o ferimento melhorava mais e mais rapidamente. Até que um dia, a ferida fechou.
No dia de ter alta e sair do hospital, seu pai e seu irmão vieram buscá-la.
Ela perguntou: " - Enfermeira ! Gostaria de agradecer àquela senhora que
veio me visitar e ajudar durante todos esses dias..."
A enfermeira respondeu: " - Qual senhora ?!"
" - Uma de cabelos longos, cheios, negra... já um pouco senhora..."
" - Minha filha ! Ninguém entra nessa enfermaria. Você deve ter
sonhado..."
Todos, percebendo a situação estranha e que viria a ser mais um, dentre tantos
fatos inexplicáveis na história da família, não entraram em maiores detalhes...
O pai perguntou: " - O que essa senhora lhe dizia, minha filha ?"
" - Que pela benção de São Lázaro, ela iria me curar..."
Todos ficaram em silêncio.
A ferida enorme, ficaria marcada em sua perna para sempre.
Anos depois, minha mãe veio a saber por sua tia, que uma pessoa, vestida de
médico também de forma inexplicável, tinha visitado o seu irmão na enfermaria,
pouco antes dele falecer.
· 11º Capítulo ·
Coisas do destino ou não ? Nunca iremos saber.
Uns parecem ter um karma mais acentuado; outros mais brandos. Por quê ?! Só os
deuses sabem !
Mas o mar límpido e plano que se mostrava à nossa frente, de repente começou a
se modificar. Talvez, minhas lembranças estivessem acompanhando o tempo ou
vice-e-versa. Talvez, minhas lembranças doces, porém amargas, estivessem
refletindo nas águas, que agora, se tornavam bravias.
O estrangeiro começou novamente a correr pelo convés. Parecia prever algo maior
que o meu desconhecimento de navegação, não me permitia compartilhar de sua
agonia.
Ele me olhava estranhamente como que me dizendo: " - Oras ! Não está a
perceber a tempestade que se aproxima ?!" Mas além de não poder lhe
responder na mesma língua, eu nada entendia de barcos e velas.
Resolvi lhe obedecer e me amarrei às argolas no piso do convés e aguardei a
tempestade.
Mas minha mãe estava presente em todas as imagens que olhava: o mar que se
lavantava, as ondas espumantes lembrando a beira da praia, o céu negro e nuvens
de chumbo. Essa sensação de prazer, agonia e êxtase sempre me acompanhou.
Muitos me diziam: " - Como alguém pode gostar de dias negros ?!" -, e
eu nada respondia. Mas a satisfação inteiror daqueles dias em que os deuses
descarregam a ira no céu, me fazia bem.
Lembro-me bem, quando na infância, todos gostavam de ir a praia sob o sol
escaldante. Eu ia feliz. Mas radiante só ficava quando chovia. Os pingos nas
águas do mar. O céu infinito negro, sem fim, sem visão, a neblina impedindo de
ver além, como se as brumas fechassem a visão do futuro.
Ah ! Ninguém me entendia. Mas naqueles simples momentos, eu era feliz.
· 12º Capítulo ·
E foi assim: um tempo em que minha mãe também conheceu a felicidade.
Os tempos mudaram naquela época tanto quanto a tempestade que agora se
aproximava de mim.
Sua vida seguiu feliz. Depois de muitos tormentos, estranhas experiências e
doenças, minha mãe conseguiu se formar no colégio, que na época chamavam de
"científico" e hoje seria, o terceiro colegial.
Suas aspirações visavam a carreira de advocacia e para qual, começou a se
dedicar diariamente. Vaidosa. Destemida. Não desistia daquilo que almejava.
Estamos em 1946.
Rita Hayworth invade os cinemas mundiais com sua imortal "Gilda".
Minha mãe, assim como todas as moças da época, decide copiar o glamouroso
vestido que a atriz usava no filme.
Era a época das debutantes, dos grandes bailes de valsa, das grandes
orquestras.
Glenn Miller havia falecido mas suas músicas e orquestra permaneciam vivos nos
bailes da época. "Moonlight Serenade" embalava os mais apaixonados
com romantismo e delicadeza que parecem ter existido somente naquela época.
Era pós-guerra. Hitler havia perdido para os aliados, mas havia deixado um
rastro de dor no mundo todo. Um sofrimento silencioso que marcaria a todos. Os
que estiveram lá e os que ficaram.
O açúcar faltava, o café era escasso, o arroz, feijão... tudo era difícil. Uma
época em que comer carne era um luxo dado a poucos.
Mas minha mãe estava completando dezoito anos e isso era motivo de alegrias.
Uma alegria que só sentimos ao estarmos livres de doenças. O resto se
conquista. Esse conceito me acompanhou a vida toda. Sempre que estava zangada
ou deprimida por qualquer motivo financeiro, ela afirmava:
- Meu filho: tudo se consegue na vida; menos a saúde. Quem tem saúde, tem tudo.
· 13º Capítulo ·
E foi assim que ela viveu a vida toda: pensando em sua saúde e cuidando da
nossa, dos filhos.
Sua vida crescia e parecia denotar que toda a infelicidade do mundo tinha
ficado para trás.
Nos bailes e matinês, era a rainha esplendorosa. Muito altiva, elegante por
natureza, chamava a atenção aonde quer que fosse. Até que um dia, despertou o
interesse em um jovem estudante de medicina.
Um rapaz de dezoito anos que tinha saído do interior de outro Estado e estava
estudando para ser médico.
Rapaz elegante, viril, de lindos olhos verdes, cor jambo da terra molhada.
Galanteador. Uma mistura de homem sério, bem educado, com a jovialidade e a
boêmia em suas entranhas.
Ao conhecer o rapaz, seu pai, um homem já de meia idade, destacou sua primeira
impressão: - Minha filha ! Esse homem é muito rico, muito próspero... vem de
uma família de prestígio... talvez não seja o ideal para você.
Mas ela estava apaixonada e encantada pelo brilho da primeira paixão. Não deu
ouvidos.
Sempre acreditamos que as diferenças nunca irão existir ao nos apaixonarmos por
alguém e não prestamos atenção aos conselhos mais sábios daqueles que não se
encontram embevecidos pelo amor. Seguiu em frente.
· 14º Capítulo ·
E o tempo passou...
Não existiam mais doenças, as feridas haviam cicatrizado e os estudos estavam
seguindo seu curso natural. - Era a vida -, pensava.
O rapaz galanteador agora quase se formando já pensava em casamento, pensamento
este que meu avô rejeitava com fervor. Sempre que o rapaz tocava no assunto,
ele mudava a conversa.
Não cheguei a conhecer meu avô. Mas por tudo que passou, ele aprendeu a ouvir
os sinais da vida, do tempo, do destino. Era algo a ser respeitado.
Minha mãe trabalhava como secretária para ajudar em seus estudos. Até que um
dia resolveu dar um ultimato ao pai para aceitar seu noivo.
O pai não gostava da idéia de após o casamento e a formatura do rapaz, voltarem
para o interior de outro Estado, só porque lá teriam mais condições de
prosperar. A idéia de deixar a filha longe de sua família, o assustava.
Contudo, não recusou a proposta do rapaz, mas deu um aviso surpreendente em uma
época em que poucas pessoas conseguiam falar ou ao menos sugerir algo
semelhante:
- Minha filha ! Se algum dia esse rapaz lhe fizer algum mal, separe-se e volte
para sua casa.
Aquelas palavras tão severas e com tom premonitivo, soaram estranhas em seu
coração. Mas prevaleceu o amor pelo rapaz e a confiança que tudo de triste e
pesaroso em sua vida, havia ficado para trás. Ficou a vontade de ser feliz e de
poder viver a felicidade, enfim.
· 15º Capítulo ·
Chegou o dia da formatura...
Meu avô e aquela que viria a ser minha avó, se conheceram. Olhares gélidos de ambas
as partes, sentimentos avessos foram trocados naqueles rápidos segundos de
apresentação.
Meu avô sentiu algo oculto no caráter ou na índole daquelas pessoas mas não
sabia explicar ou definir. Contrariamente à sua primeira impressão e intuição,
tratou a todos muito bem e não disse nada à filha.
O médico se formou com glórias e a comemoração seria marcar a data de casamento
com rapidez para que pudesse voltar ao interior de seu Estado e começar a
clinicar.
Marcaram a data. Em seis meses estariam casados e em seguida viajariam para a
outra cidade. Minha mãe teria o tempo suficiente para concluir o magistério e
no interior poderia se dedicar aos estudos da advocacia. Mas o destino
novamente não quis esse desfecho.
Um dia, no trabalho, sua perna direita começou a atrofiar, debilitando o seu
calcanhar e impedindo que tocasse ao chão naturalmente. À cada movimento ou
tentativa de andar, uma dor indescritível, invadia seu corpo e seus ossos. Era
como se sua perna estivesse definhando-se.
Seu chefe chamou a ambulância e levaram-na a um hospital próximo.
Após vários exames, os médicos concluíram o diagnóstico como
"artrite", uma doença nas articulações com deformações nos membros
seguido de reumatismo avançado e em estágio de cuidado especial.
- Não era possível -, pensava. Estava tudo muito feliz para ser verdade.
Seu noivo e sua família foram chamados para o diagnóstico final: seria mais
coerente e adequado que a moça optasse pela aposentadoria por invalidez.
Existia a chance de que voltasse a andar normalmente e a chance que não. Eram
iguais e em mesma proporção. Mas não poderiam dizer nada além disso.
· 16º Capítulo ·
Todos trocaram olhares pesarosos.
Aquela que viria a ser minha avó, sussurrou no ouvido do noivo, seu filho:
- Meu filho ! Talvez fosse melhor cancelar o casamento... você não vai começar
sua vida, que tem um futuro brilhante pela frente, com uma inválida, vai ?
Mas o noivo não hesitou e afirmou que iria se casar com ela da mesma forma.
Adiaram a data do casamento.
O tempo passou e minha mãe começou o seu trabalho por meio de exercícios, a
fisioterapia, que hoje de forma muito simples, atua com vários tipos de
doenças, mas na época, era um tratamento precário e lento, um processo quase
que alternativo.
Sua fé em São Lázaro e a sua dedicação consigo mesma, fizeram milagres.
Estamos em 1953.
Após quase seis anos de tratamento, do uso de cadeira de rodas, muitas injeções
e aplicações, minha mãe aos 24 anos começou a andar novamente. Mesmo com uma
leve acentuação, pouco perceptível ao andar, já pisava no chão como antes e não
mais sentia dores.
Seu pai, meu avô, se surpreendia com a força e coragem da própria filha.
Seu noivo, que acompanhou e a apoiou naqueles anos à fio, recebeu pela primeira
vez, um elogio do sogro, que se surpreendera com a atitude do rapaz.
Minha mãe estava encantada com a descoberta de algo tão simples e banal na vida
das pessoas, mas que ao perdermos, percebemos o quanto é importante: o andar, o
pisar no chão, estar sobre suas próprias pernas e por si mesmo, analogamente.
Depois dessa experiência, ela viria a repetir para todos em sua vida futura
que: " - ... prefiro morrer cedo, a depender das pessoas em minha
velhice..."
· 17º Capítulo ·
Estamos em 1955. É a época de ouro da música.
Não mais Glenn Miller e o swing invadem as rádios, mas sim o rock'n'roll e um
jovem garoto rebelde, lindo, mostrando a sua sensualidade: Elvis Presley.
O mundo via ainda com brilho o surgimento de uma nova mídia, a televisão.
Poucas, eram as pessoas que tinham um aparelho daqueles que transmitia imagens,
vindas não sabiam de onde e nem como podiam se projetar em suas casas de um
lugar a outro. Mas era fascinante.
A rebeldia de Marlon Brando nos cinemas e a tristeza amargurada de James Dean,
tomavam as telas dos cinemas, os comentários nos bares. As pessoas estavam
conhecendo o velho e bom jeans, calça que seria modelo de jovens e as camisetas
brancas que representariam durante décadas, a jovialidade, sensualidade e o
sex-appeal dos rapazes.
Foi nesse clima e auge do rock'n'roll, que enfim chegou a data do tão esperado
casamento.
Minha mãe e seu noivo com as mesmas idades, 26 anos, foram para o altar,
concretizar a união que o destino entrelaçou há muito tempo, talvez, muito
antes deles nascerem.
Um amor que sobreviveu a tudo e a todos, que sobreviveu ao tempo, às doenças e
à saúde. Um pacto de amor feito pelo destino, e não por eles. Eles eram a
consequência. Causa e efeitos seriam analisados muitos anos depois. Mas hoje,
isto não era importante. Ninguém pensa no futuro quando o presente é tão inspirador,
alegre e romântico.
Chegou o dia do casamento.
Meu avô todo arrumado, minha mãe linda, com o branco mais puro da alma, rodeada
dos anjos, enfeitada de grinalda-de-noiva.
Minha mãe estava aposentada por invalidez desde os 20 anos. O noivo, jovem
médico, já estava clinicando na cidade e não pensava mais em voltar ao
interior. Porém, sua mãe, insistia em encher-lhe os olhos com a prosperidade,
sucesso, fama e dinheiro, que o interior trazia, rapidamente, a um jovem
cirurgião.
Ao entrar na igreja, ao lado de seu pai, minha mãe apertou os braços de meu avô
e suspirou...
- O que houve, minha filha ?
- Não sei... por um breve instante, jurei ter visto a mamãe no altar...
Aquelas palavras soaram diferentes e antagônicas a ambos: para minha mãe, era
um presságio feliz, de que sua vida iria melhorar e com a benção e proteção de
sua mãe, aonde quer que ela estivesse; para meu avô, era um presságio ruim,
tanto que recebeu-o com imenso pesar a ponto de não se divertir mais naquele
dia e nem na festa do casamento.
A tristeza que o envolveu, logo foi reparada por todos e comentada de forma
pejorativa pela família do noivo. Pesavam-lhe as palavras e a visão da filha.
Um sentimento de arrependimento e desgosto invadia sua alma. Se pudesse voltar
no tempo, teria desfeito a união.
Mas nada fez; nada disse. Deixou que o tempo se cumprisse e assim seu destino.
Casaram. Ela e meu pai cumpriram sua parte com os deuses.
Minha mãe não sabia, naquele dia, mas a partir daquela primeira visão, estava
começando a se cumprir uma trajetória do seu destino, que iria envolvê-la para
sempre no mundo sobrenatural, de dor e sofrimento.